Manaus, Brasil, 16 Ago (Inforpress) – Empresas da Amazónia brasileira procuram na aproximação comercial com a União Europeia uma oportunidade para levar os produtos da floresta para novos mercados, mas também provar que gerar riqueza pode ser uma forma de a preservar.
A aposta passa por fazer da biodiversidade um negócio sem transformar a floresta em plantação: é essa a estratégia defendida por empresários amazónicos ouvidos pela Lusa que participam esta semana em Manaus numa ronda de negócios promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), procurando compradores europeus e de outras regiões para novas portas de entrada para produtos da região.
A estratégia é simples e o compromisso entre os empresários amazónicos é claro: se as comunidades conseguirem obter rendimento dos frutos e produtos da floresta, terão menos motivos para procurar alternativas que impliquem a destruição da vegetação.
“Queremos produzir e conservar a Amazónia brasileira”, resumiu à Lusa Lucas Manuel Alves Santos, representante das Castanhas Ouro Verde, uma empresa com vocação exportadora e que atualmente vende castanha em mais de 23 países.
“A geração dos meus pais veio para a Amazónia para desmatar. A minha geração já está vendo toda a degradação que houve. Então nós, a nova geração, tem essa consciência e está muito aliada com essa consciência da União Europeia, que é um pensamento de sustentabilidade, um pensamento de conservação”, frisou.
A castanha-do-Brasil, explicou, é um produto cuja produção depende da preservação da própria floresta, sendo que a expansão deste negócio pode criar incentivos económicos para conservar o bioma e encorajar as comunidades locais.
A empresa já exporta para vários mercados europeus, embora Portugal ainda represente uma parcela pequena dos negócios. Espanha está entre os principais mercados europeus, segundo o empresário, que vê no acordo UE-Mercosul uma oportunidade para melhorar a imagem dos produtos brasileiros junto dos consumidores europeus.
“A grande questão ainda é como eles nos veem”, afirmou, rejeitando a associação entre produtos amazónicos e desflorestação.
A aproximação entre a União Europeia e o Mercosul, na sequência do acordo assinado entre os dois blocos, pode abrir oportunidades para produtos amazónicos, mas também exige que produtores e empresas estejam preparados para cumprir padrões ambientais, de rastreabilidade e de qualidade cada vez mais elevados.
As novas regras europeias contra a desflorestação vão obrigar, a partir do final de 2026, os operadores a demonstrar que produtos como soja, carne bovina, madeira, cacau, café e borracha colocados no mercado da UE não estão associados à desflorestação e podem ser rastreados até ao local de produção.
Para Eduardo Leite, da Kamby Sorvetes, uma empresa familiar com décadas de experiência no Amazonas, o desafio é fazer com que produtos associados ao consumo local (como o açaí e o cupuaçu) consigam conquistar consumidores internacionais.
A empresa nunca exportou, mas está agora a tentar dar esse passo: “diferente de há 10 anos, consigo entender hoje que é perfeitamente possível que empresas de pequeno e médio porte consigam também fazer a exportação dos seus produtos, principalmente produtos regionais”, afirmou à Lusa.
A Kamby Sorvetes compra a matéria-prima a pequenos produtores e cooperativas e procura incorporar esses produtos na sua transformação industrial.
“Quanto mais a gente consegue comprar dessas pequenas comunidades, mais a gente ajuda a sobrevivência deles e obviamente que eles vão deixar a árvore em pé”, justificou o empresário.
Na mesma linha, Luiz Benigno, fundador da Wara’Na M’Bareté, instalada em Rio Preto da Eva, a cerca de 150 quilómetros de Manaus, explicou à Lusa que a empresa trabalha com frutos amazónicos, extrativismo sustentável e transformação artesanal, apostando em produtos desidratados, de origem vegetal e com aproveitamento de partes que tradicionalmente seriam descartadas.
Sementes, cascas e outros subprodutos são incorporados à cadeia produtiva, enquanto a empresa procura envolver comunidades ribeirinhas, indígenas e outros produtores locais.
“Não exploramos só a mão-de-obra deles, nós trazemos eles para dentro da cadeia produtiva”, sublinhou Benigno.
“O impacto que nós geramos é zero, porque a nossa ‘biofábrica’ é artesanal. Nós usamos a mão-de-obra local, conhecimento tradicional. Todos os nossos produtos são pautados na ciência, pautados nos conhecimentos tradicionais, usando as tecnologias sociais como a desidratação solar”, reforçou.
O empresário vê na exigência europeia de rastreabilidade e de combate à desflorestação não apenas uma barreira regulatória, mas também um estímulo para reorganizar as cadeias produtivas amazónicas.
“Isso foi o que alavancou o nosso trabalho”, enfatizou, defendendo ainda que as exigências ambientais ajudaram a valorizar negócios baseados na biodiversidade e a criar alternativas à exploração de madeira.
A empresa já iniciou o processo de entrada no mercado europeu, com Portugal como primeiro destino, enxergando o país como “porta de entrada” para outros mercados da União Europeia.
Para estes empresários, a aposta não passa, por isso, por substituir a floresta por grandes monoculturas, mas por encontrar valor económico na diversidade que ela já oferece.
O objetivo é que o próximo capítulo da Amazónia seja a capacidade de vender ao mundo aquilo que a floresta já produz e fazer com que conservar deixe de ser apenas uma obrigação ambiental para passar a ser também um negócio.
Inforpress/Lusa
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