Cidade da Praia, 07 Mar (Inforpress) - A presidente da delegação para a preservação da herança judaica em Cabo Verde, Carol Castiel, afirmou hoje que a oficialização desta filial no arquipélago visa conferir um sentido de “propriedade” (ownership) aos cabo-verdianos e descendentes.
Em entrevista à Inforpress, Carol Castiel explicou que a constituição oficial do Cabo Verde Jewish Heritage Project, formalizada este mês em Boletim Oficial (B.O.), marca uma nova etapa após décadas de coordenação a partir dos Estados Unidos.
Segundo a responsável, a estrutura passa a ter personalidade jurídica nacional, assumindo a missão de garantir a sustentabilidade dos cemitérios israelitas e integrar a história judaica no roteiro turístico e cultural do país.
“Este património é de Cabo Verde, que acolheu estes judeus no século XIX”, sublinhou Carol Castiel, destacando que a nova delegação terá agora capacidade para interagir directamente com o Governo, embaixadas e instituições internacionais para a captação de fundos e manutenção dos monumentos.
“Queremos colocar Cabo Verde no palco global da diáspora judaica. O património será integrado em roteiros de turismo sustentável, incluindo sinalética comemorativa e o uso de códigos QR para doações e informações”, sublinhou.
Entretanto, segundo Carol Castiel, a curto prazo, o foco centra-se na manutenção operacional, revelando que em Santo Antão, após uma visita de dez dias, foram estabelecidas parcerias com a Câmara Municipal da Ribeira Grande para a limpeza, pintura e definição de regras de visita nos cemitérios da Penha da França e Ponta do Sol.
Na Praia, o projecto prevê melhorias na sinalização do talhão judaico no cemitério da Várzea, enquanto na Boa Vista decorrem conversações para requalificar o pequeno cemitério local em articulação com o Fundo do Turismo.
“Não basta cortar fita e virar as costas… é preciso manutenção contínua para que estes monumentos sobrevivam”, defendeu a responsável.
Carol Castiel realçou ainda o apoio contínuo do Rei Mohamed VI de Marrocos - país de origem da maioria dos imigrantes judeus que chegaram às ilhas no século XIX - e anunciou para o mês de Abril a visita de uma delegação marroquina, incluindo académicos e jornalistas, para reforçar o intercâmbio cultural.
Para a organização, o potencial para o turismo é evidente: “O turista judeu viaja para onde existe uma pegada da sua história e Cabo Verde entrará neste roteiro global, o que beneficiará também o turismo de natureza e a economia local”, vaticinou a presidente.
Apesar de não existir actualmente uma comunidade religiosa activa, Carol Castiel explicou que o projecto foca-se na preservação da memória e além do património físico, a organização aposta na documentação histórica, com a tradução para inglês do livro sobre a presença judaica em Cabo Verde, visando alcançar a diáspora nos EUA e na Europa.
“Os descendentes são parte integrante da nação multicultural de Cabo Verde”, concluiu a coordenada a partir dos Estados Unidos, reafirmando que o objectivo é dar “justiça à história” e garantir que as futuras gerações conheçam a contribuição desta comunidade para a formação do país.
SC/CP
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