Cidade da Praia, 25 Ago (Inforpress) – O jornalista brasileiro Ricardo Setyon, que já cobriu 11 Mundiais, está em Cabo Verde para investigar o fenómeno dos Tubarões Azuis, preparar um livro e desenvolver projectos de aproximação desportiva entre Cabo Verde e Brasil.
Setyon chegou ao país movido por uma pergunta que, admite, ainda não conseguiu responder: como uma selecção de um país pequeno, com jogadores pouco conhecidos internacionalmente e sem uma liga profissional estruturada, conseguiu surpreender o mundo no Mundial de 2026?
O jornalista acompanhou presencialmente os quatro jogos de Cabo Verde na competição e conta que, a cada partida, contrariou as próprias previsões.
O desempenho da selecção acabou por levá-lo a abandonar a posição habitual de jornalista para viver a festa junto dos adeptos cabo-verdianos.
“Eu não consigo explicar. Eu prefiro ouvir de você, de outras pessoas, o que aconteceu”, admite, ao descrever a prestação dos Tubarões Azuis como “um grande mistério”.
É precisamente essa procura por respostas que sustenta a sua passagem por Cabo Verde. Setyon pretende escrever artigos para órgãos de comunicação social de vários países e prepara um livro intitulado “Cabo Verde, Os Campeões do Mundo do Coração”, em português, espanhol e inglês.
Conforme afirmou à Agência Cabo-verdiana de Notícias (Inforpress), a obra pretende retratar a forma como a selecção cabo-verdiana conquistou a simpatia de adeptos de diferentes partes do mundo durante o Mundial.
Para o jornalista, o interesse internacional pela selecção cabo-verdiana ainda está vivo e deve ser aproveitado enquanto a memória da participação dos Tubarões Azuis permanece recente.
“O ferro está quente”, resume, defendendo que Cabo Verde tem agora uma oportunidade para transformar a repercussão alcançada no Mundial em novas histórias e projectos.
Além do livro e dos artigos, Setyon trouxe consigo outras propostas. Entre elas está a possibilidade de organizar um jogo de exibição entre Cabo Verde e antigas estrelas da selecção brasileira campeã do mundo.
O jornalista diz ter conversado com os campeões mundiais Edmilson e Cafu sobre a ideia, tendo Edmilson manifestado disponibilidade para ajudar a negociar uma eventual iniciativa.
A intenção passa ainda por criar uma ponte desportiva entre Cabo Verde e Brasil, com possibilidades que incluem futsal, formação e uma eventual escola de gestão desportiva, com participação de profissionais brasileiros em áreas como gestão e comunicação no desporto.
Setyon, que trabalha como freelancer e mantém clientes em países como Coreia do Sul, Japão, Inglaterra, Brasil, França e Itália, defende que o jornalismo desportivo deve procurar histórias para além do resultado das partidas.
A sua abordagem, explica, passa por encontrar ângulos capazes de interessar também a quem não acompanha futebol.
Foi esse olhar que o levou, por exemplo, a reparar nas famílias cabo-verdianas que continuam a vestir as camisolas dos Tubarões Azuis nas ruas, uma imagem que, na sua leitura, traduz a dimensão social da campanha no Mundial.
“Vir aqui e descobrir que o Vozinha não é Deus é o material que eu quero mostrar”, exemplifica, numa provocação que traduz a sua intenção de procurar histórias menos óbvias sobre os protagonistas do futebol cabo-verdiano.
Apesar dos projectos, a estadia não tem sido simples. Setyon reconhece dificuldades em estabelecer contactos e encontrar interlocutores ligados ao futebol, situação que o deixou “muito decepcionado” e “muito desanimado”.
Ainda assim, garante que pretende manter a porta aberta a Cabo Verde e encontrar histórias que possam despertar o interesse dos seus editores internacionais.
O jornalista também vê espaço para uma iniciativa ligada ao futebol feminino.
Entre as ideias está a possibilidade de levar uma delegação de jogadoras cabo-verdianas ao Brasil durante o Mundial feminino do próximo ano, para disputar jogos de preparação com equipas brasileiras, proposta que ainda não tem data nem plano definido.
Com 11 Mundiais no currículo, quatro décadas de cobertura e uma carreira construída como freelancer, Setyon encontrou também na experiência cabo-verdiana uma oportunidade para reflectir sobre o próprio jornalismo.
Para ele, a profissão exige capacidade de resistência, criatividade e coragem para procurar informação onde outros ainda não olharam.
“Ser jornalista é ser guerreiro, é perder, é ganhar, é levantar, é ser humilhado”, confidenciou.
A passagem por Cabo Verde surge, assim, não apenas como uma viagem de trabalho, mas como uma tentativa de transformar a inesperada trajectória dos Tubarões Azuis no Mundial em histórias capazes de manter o país no radar internacional.
Setyon admite que ainda procura respostas, contactos e “ganchos” que pretende levar aos seus leitores, mas garante que continuará a investigar o fenómeno que o trouxe a Cabo Verde.
KF/JMV
Inforpress/Fim