Porto Novo, 14 Jun (Inforpress) – O jovem empresário Adilson Gomes, da Ribeira Fria, no interior do Porto Novo, Santo Antão, exortou, sábado, os jovens a olharem para as oportunidades que o meio rural apresenta, desencorajando-os a deixar as suas localidades.
Adilson Gomes, agricultor e operador turístico, é um dos protagonistas da curta-metragem intitulada “Devagarim” apresentada, este sábado, na cidade do Porto Novo, no quarto dia da vigésima edição da feira agropecuária de Santo Antão.
Este jovem empresário um dia quis sair da sua localidade (Ribeira Fria) à procura de novas oportunidades nos meios urbanos, mas resolveu ficar e, nesta altura, diz-se “muito feliz” por ter optado por ficar e não se arrependeu.
“No meio rural, sabemos que há desafios. Vi, em apenas dois meses, a saída de mais de 70 pessoas da Ribeira, mas resolvi ficar. Desafiei-me a mim mesmo a ficar e não me arrependi”, sublinhou Adilson Gomes, que se considera, actualmente, um agricultor bem-sucedido.
Arranjou o seu próprio terreno onde tem cultivado batatas, cenoura, tomate, mandioca e outros produtos e, com o rendimento desta actividade, conseguiu ainda construir, na sua própria localidade, um empreendimento turístico.
Trata-se de uma pousada para receber as pessoas, avançou este jovem, que explicou que a criação da pousada foi uma forma que dizer as pessoas para virem conhecer Ribeira Fria e “hoje muitas pessoas visitam esta zona com grandes potencialidades agrícolas e turísticas”, declarou.
Este jovem empresário concluiu, por isso, que “nem sempre partir é solução” que as oportunidades existem também no meio rural.
Adilson Gomes exorta, por isso, os jovens para, antes de pensarem em sair, avaliarem bem as oportunidades que o meio rural oferece, que são muitas: terrenos férteis, água, turismo.
“Sabemos que é uma luta diária viver nas zonas rurais, sobretudo nas zonas sem estrada, mas tudo na vida exige luta. Eu sou testemunha de que o meio rural tem soluções para os jovens, que podem abraçar a agricultura, a pecuária e outro tipo de actividade”, notou.
Este jovem diz-se ser um exemplo de que o desenvolvimento pode acontecer sem que se tenha que abandonar as origens, mas que ficar constitui sempre “um acto de coragem”.
A curta-metragem, intitulada “Devagarim”, da realizadora Grace Ribeiro, com produção de Olho Largo, foi apresentada no âmbito da terceira edição do concurso nacional de Ideias “Bodji”, promovido pelo projecto Lidera Rural, a cargo do Centro de Estudos Rurais e Agricultura Internacional (CERAI) e Associação dos Amigos da Natureza, com o financiamento da cooperação espanhola.
Esta produção, que tem como cenário a Ribeira Fria, um dos vales onde se cultiva mais o tomate na ilha de Santo Antão, traz à discussão a temática do êxodo rural no município do Porto Novo, que está a ter reflexos nefastos para a actividade agrícola.
Os jovens preferem sair das duas localidades em direcção aos centros urbanos, deixando “um problema bicudo” ao meio rural, que se prende com falta de mão de obra, avisam os agricultores.
Na abertura da feira agropecuária de Santo Antão, que entrou hoje no seu quinto e penúltimo dia, os produtores agrícolas voltaram a manifestar a sua preocupação face à escassez de mão de obra nas comunidades rurais.
Os produtores aproveitaram para pedir à edilidade porto-novense e ao Governo medidas que possam manter os jovens nas zonas rurais, as quais estão a ficar sem a força do trabalho.
“Estamos a perder os nossos jovens, que, por falta de oportunidades, preferem sair das suas zonas em direcção a outras ilhas”, avisou o produtor agrícola Jailson Monteiro, da Ribeira dos Bodes, que pediu mais investimentos na mobilização de água.
O presidente da Aliança dos Produtores Agrícolas de Santo Antão, Vanderley Rocha, mostrou também a sua preocupação com relação à falta de trabalhadores para a agricultura, pedindo “foco na mulher rural” como forma de atenuar este problema.
Criando as condições para que as mulheres permaneçam no meio rural, será possível reter também os homens nas suas localidades, explicou este responsável, que informou que a aliança dos produtores agrícolas começou a fazer este trabalho, envolvendo as mulheres na gestão dos entrepostos agrícolas.
A curta-metragem estimula o debate e a reflexão sobre a vida e o êxodo rural, abordando igualmente a “fuga” de pessoas das comunidades devido à falta de oportunidades por factores exógenos, como as alterações climáticas.
O projecto Lidera Rural é financiado pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e tem como objectivo gerar oportunidades económicas para os jovens e mulheres rurais de ambas as ilhas.
JM/CP
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