PERFIL: Mário Loff um escritor que faz da literatura um exercício de inquietação

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PERFIL: Mário Loff um escritor que faz da literatura um exercício de inquietação
22/07/26 - 08:48 am

*** Por José Maria Varela, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 22 Jul (Inforpress) – O escritor cabo-verdiano Mário Loff não acredita em momentos de consagração, prefere falar de décadas de persistência, de páginas rasgadas, de livros que nunca chegaram aos leitores e da inquietação permanente que acompanha o ofício de escrever.

A recente distinção internacional atribuída ao livro de poesia “Hambúrguer de Carne e Espírito”, publicado em Portugal e nos Estados Unidos, surge, por isso, como mais uma etapa de um percurso literário construído longe do imediatismo.

Natural do Tarrafal de Santiago, o escritor afirma transportar consigo a terra onde nasceu, não apenas como lugar de memória, mas como território literário.

Na sua visão, Tarrafal representa muito mais do que uma localização geográfica ou um episódio marcante da história nacional. 

É um espaço onde convivem tradição oral, música, hospitalidade, resistência e criatividade, elementos que atravessam grande parte da sua escrita.

Licenciado em História e Património pela Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Mário Loff considera que a formação académica reforçou a sua atenção à memória e ao património cultural, temas recorrentes na sua obra.

Defende que a História e a Literatura caminham lado a lado, uma procura compreender o que aconteceu, a outra tenta explicar o significado humano desses acontecimentos.

Ao longo do percurso, construiu uma obra repartida entre poesia, ficção e teatro, recusando limitar-se a um único género literário.

Para o escritor, cada forma de expressão responde a necessidades diferentes, mas todas partilham a mesma finalidade - interrogar o ser humano, questionar certezas e provocar reflexão.

Mário Loff define a literatura como uma forma de resistência, considerando que escrever não serve para proporcionar conforto nem para alimentar vaidades, mas para desafiar o pensamento dominante e contribuir para a formação de leitores livres e conscientes.

Essa preocupação estende-se à realidade cultural cabo-verdiana, embora reconheça o aparecimento de uma nova geração de escritores e entender que o principal desafio da literatura nacional já não é a publicação de livros, mas a criação de leitores.

Na sua opinião, uma sociedade que produz escritores, mas não investe na leitura, compromete o desenvolvimento da própria cultura.

É também essa convicção que explica o seu envolvimento na promoção da leitura e na dinamização cultural.

Membro fundador da Associação Literária de Tarrafal de Santiago (Altas), tem participado em iniciativas de incentivo ao livro, encontros literários e actividades de mediação cultural, procurando aproximar a literatura das comunidades.

Na sua escrita, privilegia personagens que vivem longe dos centros de poder e da atenção mediática.

São homens e mulheres anónimos, marcados pela memória, pela exclusão ou pela resistência quotidiana, que ocupam frequentemente o centro das suas narrativas.

Para Mário Loff, é nesses percursos discretos que a literatura encontra algumas das suas perguntas mais importantes.

O reconhecimento internacional alcançado por “Hambúrguer de Carne e Espírito” não alterou essa visão.

Pelo contrário, o escritor considera que um prémio aumenta a responsabilidade de quem escreve e obriga-o a continuar a procurar novas formas de expressão, recusando acomodar-se ao aplauso ou ao sucesso.

Essa permanente inquietação estende-se ao próprio processo criativo e Mário Loff afirma que um escritor nunca encontra definitivamente a sua voz.

Defendendo a reescrita como parte essencial da criação literária, admite que muitos textos nunca chegam a ser publicados por não corresponderem ao nível de exigência que estabelece para si próprio.

Enquanto prepara novos projectos de poesia e ficção, continua a olhar para a literatura como um espaço de liberdade e de questionamento. 

Mais do que oferecer respostas, acredita que os livros devem levantar perguntas capazes de acompanhar os leitores para além da última página.

Para Mário Loff, a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde ainda é possível desacelerar o pensamento, contrariar a superficialidade e compreender melhor a condição humana.

É essa convicção que sustenta uma obra construída ao longo dos anos e que agora começa a conquistar novos leitores além-fronteiras.

JMV/AA

Inforpress/Fim

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