
Cidade da Praia, 06 Set (Inforpress) – Uma grande multidão despediu-se hoje de Bino Branco, músico dos Ferro Gaita, cujo corpo foi sepultado no cemitério da Várzea, ao som de funaná, batuco e tabanca, entre choros e aplausos.
Falecido em 27 de Agosto, nos Estados Unidos, onde se encontrava há cerca de um ano em tratamento médico, o músico, intérprete, compositor e instrumentista cabo-verdiano Carlos Alberto Pereira Lopes, conhecido por Bino Branco, dos Ferro Gaita, foi sepultado esta tarde, aos 56 anos.
À cerimónia fúnebre juntou músicos de diferentes quadrantes da música tradicional cabo-verdiana, familiares, amigos, figuras populares e personalidades ligadas à cultura, além de simpatizantes do agrupamento musical Ferro Gaita, formando uma vasta moldura humana.
A urna, trasladada dos Estados Unidos para a Cidade da Praia na noite de sábado, foi acompanhada desde a residência do músico, no bairro de Calabaceira, até ao cemitério da Várzea, num cortejo marcado pela música dos Ferro Gaita, agrupamento que Bino Branco fundou em 1996, juntamente com Eduíno e Paulino Preto, e que se tornou um dos ícones da música tradicional cabo-verdiana.
A viatura que transportava a urna foi seguida durante todo o percurso por um atrelado onde os integrantes dos Ferro Gaita, liderados por Eduíno, na gaita, interpretaram algumas das melodias mais associadas ao malogrado músico, entre as quais “Bino Branco”, “Fundu Baxu” e “Rei di Tabanca”.
À chegada ao cemitério da Várzea, os Ferro Gaita prestaram uma última homenagem ao artista, considerada “ímpar” pelos populares. Enquanto a urna entrava no recinto, o agrupamento interpretou vários dos temas que eternizaram a sua voz e o ferrinho, acompanhados pelas palmas da multidão.
Além do funaná, o cortejo foi marcado pela participação de agrupamentos de tabanca e batuco, que tocaram e dançaram ao longo do percurso, à porta e no interior do cemitério.
Durante a cerimónia realizada na Câmara Municipal da Praia, familiares, autoridades e amigos recordaram Bino Branco não apenas pela sua contribuição para a música cabo-verdiana, mas também pela forma alegre e humana como se relacionava com os outros.
Para o irmão, Domingos Lopes, a morte de Bino representa “uma perda irreparável” e deixa a família mergulhada num momento de “dor intensa, mágoa e tristeza”.
Reconhecido como “uma das figuras mais importantes” do funaná contemporâneo, Bino Branco teve uma carreira intimamente ligada aos Ferro Gaita, dos quais foi um dos principais vocalistas e membro fundador, em 1996, juntamente com Eduíno e Paulino Preto.
Nascido em Cabo Verde, Bino Branco tornou-se conhecido pela voz marcante e pela execução do ferrinho, ou ferro, instrumento tradicional que, juntamente com a gaita, acordeão diatónico, constitui a base sonora do funaná.
A sua imagem ficou de tal forma associada ao instrumento que se tornou frequentemente uma referência quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana.
Bino Branco integrou vários grupos musicais juvenis, entre os quais o Grupo Djassy, onde foi vocalista principal. Após a dissolução do grupo, em 1991, foi viver para a ilha Brava, onde se tornou presença assídua nas noites cabo-verdianas.
Em 1996, juntou-se a Eduíno Tavares, conhecido por Iduíno, e a Paulino Preto, com quem criou os Ferro Gaita, com o objectivo de recuperar a sonoridade tradicional do funaná, devolvendo protagonismo ao ferrinho e à gaita numa época em que os teclados dominavam o género.
O primeiro álbum, “Fundu Baxu”, foi lançado em 1997 e tornou-se um enorme sucesso em Cabo Verde e na diáspora cabo-verdiana, marcando o início de uma revitalização do funaná tradicional.
Ao longo de mais de três décadas de carreira, Bino Branco contribuiu para transformar os Ferro Gaita numa das bandas mais influentes da história da música cabo-verdiana.
SR/JMV
Inforpress/Fim
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