Perfil: Lúcio Antunes em estado puro e para lá das tácticas ou do barulho dos estádios

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Perfil: Lúcio Antunes em estado puro e para lá das tácticas ou do barulho dos estádios
21/02/26 - 06:30 am

Cidade dos Espargos, 21 Fev (Inforpress) – O antigo seleccionador nacional, Lúcio Antunes, que vive hoje a sua fase mais serena, longe do ruído das bancadas e do peso do cronómetro, abre as portas da sua intimidade para revelar o "Mister" sem filtros.

Sentar-se com Lúcio Antunes, o homem que fez de Cabo Verde uma potência emocional no mapa do desporto é um exercício de tranquilidade.

O encontro decorreu na Esplanada Bom Dia, onde se apresentou ao fim da tarde, sorridente e de forma simples, para uma prosa descontraída e fora do comum.

Mais do que falar de futebol, Lúcio fala de pertença, entre frases curtas e um crioulo que carrega a alma das ilhas, abre o livro de uma vida onde a táctica mais importante sempre foi a resiliência.

Sem filtros e na língua que melhor expressa o nosso sentir, o “mister” percorreu as memórias que moldaram a sua carreira e as reflexões que ocupam o seu presente.

Um perfil humano de quem habituou o país à adrenalina das grandes decisões desportivas, ensinou-o a acreditar que o impossível é apenas uma questão de perspectiva e hoje, aos 59 anos, revela um semblante de quem encontrou o seu porto seguro.

Embora o Sal seja a sua morada há três décadas e meia, tempo suficiente para o salitre lhe moldar a rotina, o coração de Lúcio continua a pulsar ao ritmo da Ponta Belém, o bairro da cidade da Praia que o viu nascer e que ele carrega como uma bússola de identidade.

Embora o registo de nascimento dite Ulisses Indalécio Antunes, o mundo conhece-o apenas como Lúcio, porque o nome de baptismo perdeu o protagonismo logo à nascença, quando o bebé gordinho foi prontamente comparado a um tio com as mesmas feições e desde esse primeiro dia, o apelido herdado por semelhança tornou-se a sua verdadeira identidade.

Oriundo de uma família de classe média da Praia, filho de Liloca e Lessy, Lúcio Antunes recorda uma infância feliz em Ponta Belém ao lado dos dez irmãos.

“Nunca faltou nada em casa, nem comida nem roupa, nem 10 escudos para ir ao cinema”, conta, comentando também que teve uma juventude activa, dividida entre os estudos na Escola Grande, Lavadouro e no Liceu Domingos Ramos, e as competições fervorosas entre grupos como Tchaboys, Guerra Mendes e Bairro, em modalidades que iam do basquetebol ao ténis de campo.

“Pratiquei muito desporto, tínhamos bola para jogar, íamos tomar banho no mar… tive uma infância e uma juventude felizes”, sublinhou.

Após concluir o liceu, seguiu para Portugal para se formar em controlo de tráfego aéreo, mas o destino reservava-lhe o estatuto de figura icónica do futebol.

No entanto, quem é o Lúcio quando as luzes do estádio se apagam? 

“O meu cordão umbilical está em Ponta Belém, lugar que não troco por nenhum sítio no mundo. Mas, é claro que tenho um carinho muito especial pelo Sal, onde trabalho, tenho também a minha família e boa qualidade de vida”, manifestou.

Há quem o conheça pelas tácticas de jogo, mas para entender Lúcio Antunes, de facto, é preciso caminhar pelas ruas da Praia, mais precisamente na Ponta Belém, onde tudo começou.

No entanto, a sua maior vitória não aconteceu num relvado, mas na paz que encontrou na vida pessoal, embora a sua experiência enquanto seleccionador nacional, por quase quatro anos, foi como ter chegado ao “Top do mundo”, com responsabilidades acrescidas na modalidade.

“Ser seleccionador nacional foi a realização de um sonho. Como te disse, gosto de competir, gosto de ganhar e foi uma oportunidade para pôr em prática as minhas ideias”, comentou, exteriorizando satisfação e orgulho enorme por ver o país, Cabo Verde, no Mundial 2026. 

Divorciado, longe dos holofotes dos estádios, vive hoje a plenitude de uma nova relação que atravessa quase uma década e é uma curiosa aritmética do destino: uma companheira nove anos mais nova, com quem partilha uma relação de nove anos e o brilho nos olhos de uma filha que tem, também ela, nove anos de idade, que é o seu mundo.

Do primeiro casamento, que durou 31 anos, Lúcio Antunes tem dois filhos, um rapaz de 33 anos e a menina 26, também já é avô de três netos.

“Quando casamos eu tinha 25 anos e ela 19. Foram 31 anos de uma boa relação, da qual guardo boas recordações. A vida é dinâmica. Foi bom enquanto durou. Eu e a minha ex-mulher conservamos uma boa amizade. Atingindo uma certa maturidade a gente encara as situações com naturalidade”, observou, anunciando que pensa casar novamente, mas não sabe quando.

Embalado nas suas lembranças, conta que há momentos que ficam gravados na memória como se tivessem acontecido ontem.

Para Lúcio, um dos episódios mais marcantes da sua vida aconteceu no dia em que o destino o dividiu entre o relvado e o nascimento do seu primeiro filho.

Enquanto a esposa iniciava o trabalho de parto na Praia, ele enfrentava um dilema de nervos.

A sua equipa, a Académica, tinha um embate decisivo na ilha do Sal contra o Verdum, o tempo passava, o bebé teimava em não nascer e a ansiedade crescia, com o coração nas mãos, voou para o Sal para cumprir o seu compromisso profissional.

Em campo, a tensão transformou-se em garra.

Foi dele, de cabeça, o golo que garantiu a vitória da Académica, mas o verdadeiro triunfo esperava-o fora das quatro linhas.

Mal o jogo terminou, correu para o telefone, do outro lado da linha, a notícia que coroou o dia: o seu primogénito acabara de nascer.

“Foi um dia inesquecível. Marquei o golo da vitória e recebi o melhor presente da minha vida, tudo no mesmo instante. E voltei no dia seguinte para a Praia para ver o menino”, recordou, relatando várias outras emoções.

Lúcio que se diz muito caseiro, ajuda nas lides da casa, cozinha todo o tipo de comida, põe e tira roupas no estendal, lava a loiça, entre outros afazeres, não dispensa o convívio familiar, e uma praia de mar aos fins-de-semana, também um passeio à noite e um jantar na cidade turística de Santa Maria.

“Também gosto de dançar, sair para jantar com os amigos, ouvir boa música cabo-verdiana, viajar, sempre que posso, mormente agora com os voos ‘low coast’”, disse, salientando que a vida ensinou-lhe muita coisa, como determinação e resiliência, a não abrir mão dos valores e princípios, procurar ser feliz, não se preocupar tanto com os bens materiais, porque daqui não se leva nada, e a importância de se relacionar bem uns com os outros.

Ao fim de 35 anos a ver o sol pôr-se no horizonte do Sal, Lúcio Antunes, que ao longo da conversa ia dando largos sorrisos e gargalhadas, parece ter decifrado a táctica da felicidade sem pressa.

Entre a saudade mansa da Ponta Belém e o alicerce da sua família, o homem que gritou ordens nos maiores estádios do continente prefere hoje o tom baixo das conversas em família e o sorriso da filha.

No apito final desta conversa, fica a imagem de um líder que escolheu convocar apenas o essencial: a prova de que o melhor lugar do mundo é aquele onde o coração se sente, finalmente, em casa.

SC/HF

Inforpress/Fim

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