
Sal Rei, 04 Out (Inforpress) – A escassez de habitação na ilha da Boa Vista, agravada pela constante chegada de pessoas a trabalhar, a explosão de turistas e novas rotas aéreas, sufoca residentes, professores e imigrantes que enfrentam rendas insustentáveis.
Impulsionada pela chegada constante de mão-de-obra para o sector hoteleiro e, mais recentemente, pela entrada de um novo perfil de turistas independentes na ilha na sequência dos voos de baixo custo, a ilha enfrenta profundas transformações no mercado imobiliário.
As habitações de longa duração têm vindo a dar lugar ao arrendamento turístico, e as férias transformaram o teto num luxo inacessível. O que é apontado por quem vive na Boa Vista como o principal motivo para deixar residentes estrangeiros, quadros nacionais e comunidades imigrantes sem alternativas viáveis.
Por trás, já nem tanto, dos benefícios dos resorts de luxo e das novas rotas de companhias aéreas low-cost, esconde-se uma realidade cada vez mais alarmante para os que fazem a ilha funcionar diariamente e agora enfrentam uma emergência habitacional.
A história repete-se de porta em porta. Patrícia del Peso, espanhola a residir na Boa Vista há mais de um ano, teve o senhorio a pedir-lhe a casa para o converter em alojamento do tipo Airbnb.
«Tudo o que antigamente era para larga duração, agora é para férias», afirma, relatando os meses de busca em que a resposta era sempre igual, “não há para longa estadia”.
A mesma pensa que a inflação disparou devido as grandes obras hoteleiras, indicando que as casas mobiladas rondam entre 25 e 45 mil escudos, mas podem chegar até aos 1.000 euros.
Conclui que infelizmente quem pode paga, e depois fica complicado para os residentes locais, cujos mais de metade dos rendimentos mensais vão para a despesa com a renda.
O impacto desta crise estende-se a sectores como a educação. Professores vindos de outras ilhas chegam à Boa Vista e deparam logo com este cenário precário.
Sob anonimato, alguns professores contaram que encontrar casa é fruto de pura sorte, e vêem-se obrigados muitas vezes a viver temporariamente de favor ou a partilhar espaços com desconhecidos.
Inclusive a insegurança habitacional faz com que alguns professores continuem a pagar a renda completa durante as férias escolares com receio de não encontrarem onde morar no regresso.
Destacaram o absurdo dos preços que extrapolam o orçamento dos deslocados, com um simples T0 com as mínimas condições custando entre 18.000 e 20.000 escudos, os T1 entre 22.000 e 25.000 escudos, e até os “quartinhos” que raramente descem dos 15.000 escudos, somados a um custo de vida e de alimentação já de si asfixiante.
Na base da economia local, referente aos trabalhadores do sector da construção civil e das limpezas, as comunidades imigrantes experimentam “a mais dura desta crise”. Sadju Masani, pedreiro e pai de dois filhos, partilha com mais cinco pessoas uma casa de dois quartos sem condições básicas de saneamento, pagando 15 contos de renda.
«O que ganhamos é muito pouco, cerca de 25.000 a 28.000 escudos, pagamos a renda e não resta quase nada», disse, destacando a despesa sufocante com a electricidade, que os faz evitar ligar uma ventoinha só para poupar, e a necessidade de comprar diariamente cerca de quatro garrafões de água, situação que dura há um ano em meio a buscas sem sucesso de um novo lar.
O também guineense Serifu Baldé, segurança e residente na Boa Vista há mais de 20 anos, afirmou que «mesmo tendo dinheiro, não se encontra casa», aponta, descrevendo como quatro pessoas dividem um espaço por 17 contos. Revelou que a escassez de casa não o está deixando trazer sua esposa.
Sem mencionar que entre a água, a luz, ajudar a família na Guiné, a comida e despesas de saúde imprevistas no privado, no fim do mês quase nunca resta nada para poupar.
Entre as chegadas de novos visitantes, e a promessa de desenvolvimento, Boa Vista cresce economicamente, mas comprime-se socialmente. Para quem vive, o desequilíbrio entre a aceleração do turismo e as necessidades básicas de sobrevivência, exigem respostas urgentes e de regulação no terreno.
MGL/ZS
Inforpress/Fim
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