
Cidade da Praia, 04 Jun (Inforpress) – Especialistas defenderam hoje, na Praia, a Tabanka como uma das mais importantes expressões da identidade cultural cabo-verdiana, destacando o seu papel na preservação dos laços comunitários, da solidariedade e da memória colectiva transmitida entre gerações.
As posições foram manifestadas durante uma roda de conversa subordinada ao tema “Tabanka Txada e seu surgimento”, realizada em Achada Santo António, na Cidade da Praia, que reuniu o antropólogo Tony Barbosa e o investigador Domingos Mendes.
Na sua intervenção, Tony Barbosa considerou que os estudos realizados sobre a Tabanka têm incidido sobretudo na descrição das festividades, deixando em segundo plano o que designou por “espírito da Tabanka”.
Segundo o antropólogo, a Tabanka representa uma comunidade organizada em torno de valores de irmandade, solidariedade e pertença colectiva, ultrapassando a dimensão festiva habitualmente associada aos cortejos e celebrações anuais.
“Tabanka é uma comunidade. Em Cabo Verde, representa o espírito de irmandade”, afirmou.
O especialista explicou que a tradição estava historicamente associada ao culto dos santos padroeiros, momentos em que as comunidades se reuniam para celebrar a fé, a identidade e a coesão social, tendo, em determinados períodos, enfrentado restrições por parte da administração colonial.
Tony Barbosa salientou ainda que a Tabanka não pertence a qualquer indivíduo, mas à comunidade, dispondo de uma estrutura organizativa própria, composta por juízes e outras figuras responsáveis pela gestão e cumprimento das normas internas.
Contudo, observou que algumas tabankas da Cidade da Praia foram perdendo progressivamente a sua natureza comunitária, assumindo características mais familiares e domésticas, fenómeno que, no seu entender, contribuiu para o enfraquecimento de uma das dimensões centrais desta manifestação cultural.
Por seu lado, Domingos Mendes, conhecido por “Diminguinho”, apresentou uma abordagem histórica da Tabanka de Achada Santo António, recordando que a sua origem remonta à denominada “Tabankinha”, criada num contexto de dificuldades económicas e de forte solidariedade entre os moradores.
Segundo explicou, a organização surgiu com o propósito de reforçar os laços de ajuda mútua entre os habitantes, que partilhavam alimentos e outros recursos para enfrentar as dificuldades do quotidiano.
“Era uma forma de as pessoas viverem em comunidade, ajudando-se mutuamente”, referiu.
Domingos Mendes destacou igualmente que a festividade sempre esteve assente em normas, hierarquias e mecanismos de organização próprios, garantindo a ordem e o cumprimento das tradições durante as celebrações.
Acrescentou que a Tabanka continua ligada a um conjunto de crenças, simbolismos e práticas culturais transmitidas entre gerações, integrando manifestações como a música, a dança, a gastronomia e o artesanato tradicional, que variam de acordo com cada comunidade.
Durante o encontro, os participantes destacaram também o contributo de figuras locais para a revitalização da Tabanka em Achada Santo António, nomeadamente João Ribeiro, apontado como um dos principais impulsionadores do seu ressurgimento.
Foi igualmente recordado que expressões culturais de origem africana, como o batuque e a tabanka, enfrentaram ao longo da história situações de discriminação e preconceito.
A Tabanka realiza-se tradicionalmente entre os meses de Maio e Julho, sobretudo na ilha de Santiago e, em menor escala, na ilha do Maio, estando associada às festividades religiosas de Santa Cruz, Santo António e São João.
Apesar dos desafios relacionados com o financiamento das actividades e a renovação geracional dos participantes, os intervenientes consideraram que a manifestação continua a desempenhar um papel relevante no fortalecimento dos laços de solidariedade e identidade das comunidades cabo-verdianas.
A Tabanka é uma das mais antigas manifestações culturais de Cabo Verde, com raízes africanas e forte expressão nas comunidades da ilha de Santiago. Caracteriza-se pela conjugação de elementos religiosos, musicais e sociais, assumindo-se historicamente como um espaço de entreajuda, organização comunitária e afirmação identitária.
Reconhecida como património cultural imaterial nacional, continua a mobilizar centenas de participantes durante as festividades anuais, apesar dos desafios relacionados com a sua preservação e transmissão às novas gerações.
KA/SR
Inforpress/Fim
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