Livro defende oficialização do crioulo cabo-verdiano como instrumento de justiça social

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Livro defende oficialização do crioulo cabo-verdiano como instrumento de justiça social
04/06/26 - 06:57 pm

Praia, 04 Jun (Inforpress) – O investigador Luís Rodrigues defendeu hoje, na Praia, que a valorização e oficialização da língua cabo-verdiana podem contribuir para reduzir desigualdades sociais, sustentando que a atual hierarquia entre o português e o crioulo perpetua exclusões.

O autor falava durante o lançamento do livro “Pobre Não Fala Crioulo”, obra resultante de uma investigação realizada nas ilhas de Santiago, São Vicente e Santo Antão junto de professores, estudantes e outros intervenientes ligados ao sector da educação.

Segundo Luís Rodrigues, o título do livro nasceu de uma afirmação feita por um estudante durante uma das entrevistas realizadas no âmbito da pesquisa.

“Disse-o da forma mais natural possível, como se fosse algo do quotidiano, uma verdade absoluta”, relatou o investigador, explicando que a frase acabou por sintetizar uma das principais conclusões do estudo.

De acordo com o autor, embora a afirmação não corresponda à realidade, reflete uma perceção enraizada na sociedade cabo-verdiana sobre o estatuto das duas línguas.

Luís Rodrigues afirmou que o domínio da língua portuguesa continua associado ao acesso a melhores oportunidades profissionais e sociais, sobretudo entre os grupos mais favorecidos, enquanto as pessoas com menor acesso à educação e aos bens culturais enfrentam maiores obstáculos à mobilidade social.

Como exemplo, referiu um inquérito realizado junto de cerca de 150 pessoas, no qual a maioria dos inquiridos associou o domínio do português a uma situação económica mais favorável, melhores empregos e até maior inteligência.

“Num país cuja língua materna não é o português, isso significa que o próprio cabo-verdiano acaba por sentir a sua identidade diminuída”, observou.

Para o investigador, esta realidade tem impactos significativos na autoestima coletiva e na construção da identidade nacional.

Neste sentido, defendeu uma revisão do estatuto das duas línguas em Cabo Verde, considerando que a língua cabo-verdiana deve assumir maior protagonismo no sistema educativo, na administração pública e noutras instituições.

“Temos uma geração de jovens que escreve diariamente em língua cabo-verdiana nas redes sociais, mas continuamos sem consenso sobre a sua escrita e sem a sua plena integração no ensino”, assinalou.

Questionado sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, Luís Rodrigues considerou que a medida constituiria “um ato de justiça” cinquenta anos após a independência do país, defendendo a valorização equilibrada das duas línguas.

Destinado sobretudo ao meio académico, o livro pretende contribuir para o debate sobre a política linguística nacional e as suas implicações sociais, estando igualmente acessível ao público interessado na temática.

DV/JMV

Inforpress/Fim

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