
*** Por Marli Coutinho, da Agência Inforpress ***
Assomada, 15 Out (Inforpress) – Com profissões, formação e novas responsabilidades, quatro mulheres de Santiago Norte mantêm a ligação ao campo e recordam as mães como exemplos de coragem, educação e sacrifício, numa herança que permanece viva apesar das mudanças sociais.
A propósito do Dia Internacional da Mulher Rural, assinalado hoje, 15 de Outubro, a Inforpress ouviu quatro mulheres que, apesar de percursos profissionais distintos, destacam os ensinamentos e o esforço das gerações anteriores na educação dos filhos e na construção do seu futuro.
Aos 61 anos, Leonor Brito, natural de Serra Malagueta e há cerca de 30 anos angariadora de bilhetes de companhias aéreas, considera que o papel da mulher mudou, mas as responsabilidades domésticas continuam a pesar sobretudo sobre elas.
“Antigamente, a mulher fazia tudo em casa, mas nunca se considerava aquilo trabalho”, recorda, chamando a atenção para o esforço de gerações de mulheres que cuidaram da família sem remuneração nem reconhecimento.
As memórias da infância permanecem vivas, incluindo as mulheres que lavavam roupa nas ribeiras, aproveitando os recursos da natureza, o trabalho no campo, o cozinhar na lenha, o carregar da água na cabeça e disse que algumas dessas práticas continuam presentes no seu quotidiano, como marcas de uma aprendizagem que a modernidade não apagou.
Maria Tavares, de Fonte Lima, também cresceu a ajudar os pais no campo e a cuidar dos animais. Mais tarde, procurou outras oportunidades, trabalhou como vendedeira ambulante e fez formação em confeitaria, desenvolvendo competências na preparação de bolos, o que dedica hoje como seu ganha-pão, mas diz convicta de que sonha em ir mais longe.
O seu percurso mostra que conquistar novas possibilidades profissionais não significa abandonar as origens, porque ainda hoje faz tudo aquilo que aprendeu desde criança na terra. Às novas gerações, deixa a mensagem de que é possível perseguir os próprios objectivos sem perder a ligação à terra e aos ensinamentos familiares.
Professora de História, com formação superior e mestrado em Gestão e Valorização do Património Histórico e Cultural, Ana Levy considera que a mulher rural conquistou espaço na sociedade, embora continue a acumular responsabilidades dentro e fora de casa.
Cuidar das plantas, semear, colher e preservar os terrenos da família são gestos que mantêm viva a sua ligação ao campo. Mais do que uma fonte de rendimento, representam prazer, pertença e respeito pela memória dos pais.
Já para Joaquina Fernandes, também professora, a mãe é o retrato mais profundo da mulher rural. Recorda-a a levantar-se de madrugada, a cuidar dos animais e das plantações e a trabalhar incansavelmente, mesmo com poucos recursos, para garantir os estudos dos filhos.
Emocionada, reconhece que a sua formação resultou, em grande medida, do esforço dos pais, que acreditaram num futuro melhor. Valoriza a firmeza na educação e a transmissão de valores, defendendo igualmente mais diálogo e proximidade entre pais e filhos.
As quatro histórias mostram que a mulher rural de hoje já não se resume àquela que trabalha a terra e cuida da casa. É profissional, mãe, empreendedora e protagonista da própria história, capaz de conciliar as raízes com novos horizontes. Mantém a força e a sabedoria herdadas, mas procura também autonomia, reconhecimento e oportunidades.
Por detrás de muitas conquistas permanece a memória de uma mãe que trabalhou em silêncio para abrir caminhos aos filhos. A mulher rural de hoje honra esse legado, mas quer que as próximas gerações encontrem mais escolhas e menos limitações.
Em Cabo Verde, dados do Instituto Nacional de Estatística e do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género, publicados em Homens e Mulheres em Cabo Verde: Factos e Números, relativos a 2022 e 2023, indicam que as mulheres representavam 32,1% das pessoas em situação de emprego informal no meio rural, num universo de 24.674 trabalhadores. Os números reforçam a importância de reconhecer e valorizar o trabalho feminino, remunerado ou não, que sustenta as famílias e as comunidades.
MC/CP
Inforpress/Fim
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