REPORTAGEM: Mulheres de Moia Moia (São Domingos) transformam algas marinhas em biofertilizantes para agricultura (c/vídeo)

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REPORTAGEM: Mulheres de Moia Moia (São Domingos) transformam algas marinhas em biofertilizantes para agricultura (c/vídeo)
14/02/26 - 01:15 am

Cidade da Praia, 14 Fev (Inforpress) - Sete mulheres das comunidades de Moia-Moia e Praia-Baixo, integradas no projecto AMMAR, reaproveitam algas marinhas, anteriormente consideradas um incômodo nas praias, transformando-as em biofertilizantes naturais que já contribuem para o cultivo de milho, tomate e melancia.

O projecto “Alga Mudjer Mar Agrikultura Resiliência” (AMMAR) surge como resposta a um desafio crescente provocado pelas mudanças climáticas, nomeadamente o aumento excessivo de algas marinhas nas zonas costeiras, com vista a transformar este fenómeno ambiental numa oportunidade de valorização económica e sustentável.

A iniciativa envolve directamente um grupo de sete mulheres das comunidades limítrofes de Moia-Moia e Praia Baixo, no município de São Domingos, que participam em toda a etapa do processo, desde a recolha das algas no mar até à aplicação do fertilizante nas culturas.

A coordenadora do projecto, Artemiza Gonçalves, afirmou que em vez destas algas serem vistas apenas como um “incómodo ambiental", elas passaram a ser reaproveitadas como matéria-prima para a produção de biofertilizantes naturais destinados à agricultura local.

Gonçalves salientou que as algas recolhidas, “maioritariamente sargaço, algas vermelhas e ulva”, possuem elevada “concentração de vitaminas e nutrientes favoráveis ao crescimento das plantas”, tornando-as uma alternativa natural aos fertilizantes químicos.

Segundo a mesma fonte, o processo inicia-se com a recolha de algas frescas no mar, seguindo-se uma triagem rigorosa para remoção de resíduos sólidos e lixo. Posteriormente, o material é submetido a um tratamento térmico, obedecendo a protocolos científicos definidos em colaboração com a Universidade de York, no Reino Unido.

O objectivo é garantir a segurança, a eficácia e a qualidade do fertilizante produzido actualmente.

O projecto encontra-se numa fase avançada de ensaio e validação, sendo que os produtos agrícolas fertilizados como milho, tomate e melancia já foram colhidos e as amostras enviadas para análises laboratoriais no Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário (INIDA) e na Universidade de York, com vista à avaliação de nutrientes, pH e segurança alimentar.

Os primeiros resultados indicam viabilidade para consumo humano, reforçando a confiança no produto.

Além do impacto ambiental e agrícola, o AMMAR assume uma forte componente social, apostando no empoderamento feminino.

Segundo a coordenadora, no início as mulheres enfrentaram receios relacionados com o contacto com o mar, mas, através de formações em segurança, primeiros socorros e técnicas de recolha, ganharam confiança, autonomia e novos conhecimentos.

Embora ainda não exista uma microempresa formalmente constituída, a criação de uma estrutura empresarial comunitária é um dos principais objectivos do projecto.

O grupo encontra-se actualmente em processo de preparação e legalização, com vista a garantir que, no futuro, as mulheres possam gerir de forma autónoma a produção e eventual comercialização dos biofertilizantes.

Para a agricultora Edna Almeida, o projecto representou uma mudança “significativa” na sua forma de fazer agricultura.

Segundo explicou, embora já trabalhasse na área antes da iniciativa, foi através do projecto que começou a produzir fertilizantes biológicos e a compreender melhor o potencial das algas marinhas.

“Hoje plantamos sem químicos, só com produtos naturais, e já colhemos tomate, milho e melancia com bons resultados”, afirmou.

Almeida manifestou grande satisfação com o projecto, afirmando que tem adquirido novos conhecimentos, quando desconhecia anteriormente a possibilidade de utilizar algas na produção de fertilizantes, classificando a iniciativa como uma experiência muito positiva.

A médio e longo prazo, os responsáveis pelo AMMAR ambicionam expandir a produção, capacitar mais mulheres e, futuramente, alcançar mercados nacionais e internacionais e fazer exportação, transformando as algas marinhas num recurso estratégico para a economia verde e para a resiliência das comunidades costeiras de Cabo Verde.

Financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates, o projecto, desenvolvido como projecto piloto em Moia-Moia, conta com parcerias técnicas com o INIDA e universidades nacionais e internacionais. 

O AMMAR poderá futuramente ser replicado a nível nacional, onde a acumulação de algas marinhas também se verifica.

CG/SR//ZS

Inforpress/Fim

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