PERFIL: Adélcia Pires revela vida de audácia, combate e meio século de cumplicidade com o Comandante Pedro Pires (c/áudio)

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PERFIL: Adélcia Pires revela vida de audácia, combate e meio século de cumplicidade com o Comandante Pedro Pires (c/áudio)
01/07/26 - 01:36 pm

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 01 Jul (Inforpress) - Nascida sob o signo da “sorte” Adélcia Pires, numa revelação detalhada sobre a sua trajectória singular, recorda a infância, a juventude e a decisão fulminante para se juntar à luta do PAIGC nas matas da Guiné.

Adélcia Maria da Luz Lima Barreto Pires, seu nome completo, mulher do Comandante Pedro Pires e figura marcante, mas discreta da história contemporânea de Cabo Verde, quebra o silêncio nesta entrevista intimista onde recorda o seu percurso de vida.

Dos tempos de paraquedista aos 17 anos à clandestinidade em Paris, passando pelas trincheiras da luta armada na Guiné e por um casamento de mais de 50 anos com o antigo chefe de Estado Pedro Pires, a antiga primeira-dama de Cabo Verde aborda a infância itinerante, a cumplicidade do casal e deixa um forte desabafo sobre o machismo e a “ilusão” da emigração jovem.

 “Eu nasci em 08 de Setembro de 1947, no dia de Nossa Senhora da Luz, por isso, a minha mãe pôs-me o nome de Adélcia Maria da Luz e sinto que esse nome me marcou. Tive um percurso cheio de luz, onde tudo o que fiz e optei por realizar foi sucesso. A sorte na minha vida foi fantástica. Digo sempre que a Nossa Senhora da Luz me protege”, revelou.

A frase, dita com a serenidade de quem reconhece o peso da própria história, resume a essência de uma mulher de fibra, cuja biografia se entrelaça umbilicalmente com a construção do Cabo Verde independente.

Filha de Madalena Loupinho da Rocha Lima Barreto e de Domingos Alfama Barreto, ambos enfermeiros, Adélcia carrega no sangue a miscigenação do arquipélago, com raízes divididas entre Santo Antão, Santiago e a ilha Brava, cujo ofício dos pais ditou o compasso itinerante da sua infância.

Nascida em Calheta de São Miguel, na ilha de Santiago, no terrível ano de 1947, marcado pela fome avassaladora que os seus pais combateram na linha da frente, ela e as quatro irmãs habituaram-se a mudar de casa quase anualmente.

Isto porque os pais eram enfermeiros da administração pública, pelo que as constantes transferências de serviço faziam parte da própria dinâmica da carreira do Estado.

Entre tantas paragens, a ilha do Fogo cravou memórias indeléveis na mente de Adélcia Pires, tendo em 1951, com apenas quatro anos, testemunhado a fúria da erupção vulcânica.

“Lembro-me como se fosse hoje. Tínhamos de dormir na rua e o meu pai foi um dos que mais trabalhou para retirar as pessoas e dar-lhes abrigo”, recorda.

Mas se Fogo trouxe o medo, trouxe também a arte, pois, conforme recorda, o ambiente familiar era profundamente musical, onde o pai tocava violino e violão, e a mãe cantava.

Dessa simbiose nasceu uma morna composta pelo progenitor sobre o vulcão, cujos versos Adélcia ainda guarda intactos na memória, tendo-os cantarolado durante a entrevista: “Na palmanhã di sexta-feira, um dia claro, sol de dia djarfogo, um obi grito aflitivo di fora, vulcão, vulcão…”, melodia que um dia gostaria de divulgar.

Aos sete anos, a família ruma à Guiné, fixando-se em localidades como Mansoa, Farim e, mais tarde, na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós. Foi nas águas e praias idílicas de Bubaque que Adélcia cresceu, desenvolvendo uma “paixão incurável” pelo desporto.

Mais tarde, em Bissau, já no Liceu Honório Barreto, hoje Liceu Nacional Kwame N'Krumah, entregou-se ao basquetebol, ao ténis e à natação, mas foi aos 17 anos que a sua audácia desafiou a gravidade, tornando-se paraquedista e saltando num tempo em que o céu era um domínio estritamente masculino e militar. Precisava de 15 saltos para obter o brevet – licença oficial de piloto e paraquedista -, fez 17.

“Queriam que eu continuasse, mas eu disse que tinha de ir estudar para Lisboa. É um arriscar muito perigoso sair de um avião e aterrar sem quebrar uma perna. Tive muita sorte”, disse.

A rota académica parecia traçada para a Agronomia, mas o destino quis que ela se formasse em Educação Física, tendo partido para Lisboa, ingressando no antigo Instituto Nacional de Educação Física (INEF), na Cruz Quebrada, onde enfrentou uma rotina dura de viagens de madrugada para conciliar os estudos com a realidade da época.

Enquanto as suas irmãs, uma estudante de Medicina, outra de Economia, tinham contacto directo com a clandestinidade e os movimentos anti-coloniais, Adélcia vivia focada nos estudos, embora consciente da opressão.

Entretanto, o ponto de rutura deu-se em Janeiro de 1973, ano em que terminou o curso, quando o assassinato de Amílcar Cabral abalou o mundo e se transformou no catalisador definitivo. Aconselhada pela irmã, viajou para Paris, refugiando-se em casa de tios e primos.

Incapaz de ficar parada, matriculou-se na Universidade de Vincennes, mas foi na arte que encontrou a sua trincheira.

Juntamente com os primos, criou uma peça de teatro que retratava a escravatura, a opressão colonial e a urgência da independência, com o objectivo de mobilizar a comunidade cabo-verdiana em França.

A performance artística chamou a atenção de militantes destacados do PAIGC no exílio, Silvino da Luz, Olívio Pires e Carlos Reis, que, impressionados com o vigor daquela jovem, foram ao seu encontro.

A mobilização foi fulminante, pois, em menos de uma semana, Adélcia e a irmã tomaram uma decisão sem retorno, embarcando num avião rumo à Guiné-Conacri para se juntarem activamente à luta armada.

O momento que mudaria a sua vida pessoal e política aconteceu em Setembro de 1974, na histórica região libertada de Boé, durante as comemorações do primeiro aniversário da proclamação da independência da Guiné-Bissau.

Responsável pelo protocolo e recepção de jornalistas e delegações estrangeiras, foi ali que o Comandante Pedro Pires entrou verdadeiramente no seu horizonte.

“Ele protegeu-me, levou-me para a casa onde estava a mãe dele. Começámos a conhecer-nos nesse quadro”, disse.

Perguntada sobre o que a apaixonou naquele jovem Comandante que anos mais tarde viria a ser primeiro-ministro e Presidente da República, Adélcia destaca a sua oratória e o seu magnetismo intelectual.

O romance, porém, teve de esperar pelo ritmo frenético da transição.

Pouco depois, Adélcia recebeu a espinhosa missão de viajar durante três dias consecutivos, escondida na cabine de um camião militar, sem luz e sob perigo constante da frente de combate, rumo a Farim, para avaliar a real intenção de recuo das tropas portuguesas. Uma passagem secreta da sua vida que poucos conhecem, mas que demonstra a sua coragem.

O casamento aconteceu pouco tempo depois, no dia do seu aniversário, a 08 de Setembro, uma união sólida que já ultrapassa a impressionante marca dos 50 anos de cumplicidade.

Hoje, no Palmarejo Baixo, onde moram, o ritmo é diferente, mas a essência permanece intacta, descrevendo o marido como um homem que respeita profundamente o seu espaço, as suas decisões, e que lhe dá total liberdade.

O quotidiano divide-se entre a quietude do lar, as sessões de pilates e as caminhadas diárias de Adélcia, que monitoriza os seus cinco mil passos no telemóvel.

Enquanto o comandante passa os dias no gabinete imerso em memórias e audiências, Adélcia comanda os destinos da casa com gosto refinado, apesar de contar com apoio doméstico.

Assume a preparação dos jantares e cuida de cada detalhe da decoração, rejeitando apenas passar a ferro e lavar a roupa.

A sua grande paixão, contudo, é a música e a dança, o que gera uma das confidências mais bem-humoradas da antiga primeira-dama.

“Eu brincava sempre que nunca me haveria de casar com quem não soubesse dançar. Quando me casei com o Pedro Pires, esqueci-me dessa parte. Ele não sabe dançar mesmo. Mas isso não o incomoda. Se eu oiço uma música de que gosto, vou e tiro alguém que saiba dançar. As pessoas às vezes ficam com vergonha por eu ser a esposa do Pedro Pires, por isso tomo a iniciativa, tiro a pessoa e danço. Eu animo aquilo tudo”, conta entre um sorriso.

Quando o marido prefere o recolhimento do lar, Adélcia junta-se às irmãs e ruma aos concertos na capital, regressando de madrugada sob o olhar cúmplice e atento do comandante, que a recebe sempre com a mesma pergunta: “Foi bom”?

Apesar da vida tranquila, Adélcia carrega mágoa em relação ao reconhecimento interno, confessando detestar a mentira e a ingratidão.

Lamenta que, na transição para o pluripartidarismo, lhes tenham retirado o património básico como casa e carro, sublinhando que a estabilidade actual advém do Prémio Mo Ibrahim ganho por Pedro Pires em 2011, e não de benesses estatais.

Aponta ainda o contraste com o exterior, referindo que “lá fora, Pedro Pires é como um Deus. Em Angola, há dois meses, ele foi tratado com honras de chefe de Estado em funções. O respeito está lá em cima”, exteriorizou.

O seu apelo final à nova geração é um hino ao patriotismo, lembrando que o seu legado é que continuem a dar o melhor de si para Cabo Verde.  

SC/CP

Inforpress/Fim

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