
*** Por José Maria Varela, da Inforpress ***
Cidade da Praia, 06 Mai (Inforpress) – O produtor cultural Jeffery Hessney defendeu em entrevista à Inforpress a cultura como “bem essencial” e alertou para fragilidades do sector em Cabo Verde, apontando falta de financiamento e reduzida valorização no contexto eleitoral.
Nascido em 1970, nos Estados Unidos da América, e licenciado em Antropologia, Hessney vive em Cabo Verde desde 2000, onde trabalha como tradutor, intérprete e produtor da companhia de dança Raiz di Polon, com a qual colabora desde 2002.
O produtor, que também mantém ligação ao Mindelact, onde desempenha funções de programador e coordenador de projectos, afirmou à Inforpress que o seu contributo para a dança no país tem incidido sobretudo ao nível da produção e promoção.
“A Raiz di Polon foi um ‘comboio’ que apanhei já em andamento”, disse, explicando que a sua intervenção tem incidido na organização, comunicação e internacionalização das artes performativas.
Enquanto vice-presidente da Associação Mindelact, considerou que o sector atravessa um momento difícil, marcado pela diminuição do financiamento a nível global e por uma crescente tendência para submeter a cultura às regras do mercado.
“Diria que as artes performativas em Cabo Verde atravessam um momento difícil, mas não muito mais difícil do que sempre tem sido o caso. Há uma menor disponibilidade de financiamento para as artes em geral no mundo inteiro, tanto por causa dos efeitos que ainda se sentem da crise de 2008 como por causa da crescente e hipócrita propagação da ideia de que a arte e a cultura devem ser sujeitas às mesmas leis de mercado que regem a compra e venda de bens de consumo, em vez de serem vistas como bens de primeira necessidade, como a saúde ou a educação”, criticou.
Apesar disso, reconheceu que a criação artística cabo-verdiana tem alcançado visibilidade internacional, com artistas como Marlene Freitas, Luciene Cabral, Djam Neguin e Cléo Diára a destacarem-se além-fronteiras, alertando, contudo, que essa projecção pode criar a ilusão de um sector sustentável.
Hessney apontou ainda a disparidade de investimentos entre festivais de música e eventos de artes cénicas, referindo que iniciativas como o Mindelact ou o Kontornu enfrentam dificuldades de financiamento, apesar da sua relevância e dimensão internacional.
“Ambos os tipos de eventos têm, evidentemente, o seu lugar e a sua importância, mas é frustrante constatar a naturalidade com que se gastam dezenas de milhares de contos em eventos de música com, francamente, relativamente pouca repercussão internacional, enquanto os organizadores de eventos como o Mindelact ou o Kontornu têm, literalmente, de suplicar apoios que, para os festivais de música, seriam migalhas incidentais”, considerou.
No âmbito das eleições legislativas de 17 de Maio, defendeu que a cultura pode desempenhar um papel importante na promoção da cidadania, quer através da crítica social, quer na formação de públicos mais exigentes e conscientes.
“O primeiro papel é mais específico ao momento eleitoral em si, em que a irreverência e o humor dos criadores podem ser úteis para apontar casos de má-fé ou abusos óbvios da confiança do público, o que ajuda os eleitores a apurarem o seu sentido crítico e a terem menos receio de ‘chamar os bois pelos nomes’.”
Outro papel, especificou, que a cultura e as artes desempenham na promoção da cidadania “é mais contínuo e de mais longo prazo – o de acostumar o público a um nível de qualidade artística e introspecção estética que, naturalmente, ajuda, ao longo do tempo, a apurar o discernimento e a rejeitar facilitismos”.
Contudo, considerou que os artistas e agentes culturais não estão suficientemente envolvidos no debate político, lamentando que a cultura não esteja a ser valorizada como ferramenta de reflexão social durante a actual campanha eleitoral.
“Isso acontece, talvez, pela tendência dos eleitores (e dos artistas) de se verem como sujeitos mais ou menos passivos (podendo ser beneficiários ou vítimas) das decisões tomadas pelos eleitos e, portanto, isentos de responsabilização pelas mesmas”, explicou.
Para o produtor cultural, “uma grande parcela da classe política vê no artista um apoiante ou um inimigo partidário em potencial, a ser compensado ou vilipendiado conforme o sentido do seu voto”.
JMV/CP
Inforpress/fim
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