Perfil: Mitú Monteiro abre o coração sobre seu refúgio e desvenda mistérios que moldaram sua vida (c/áudio)

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Perfil: Mitú Monteiro abre o coração sobre seu refúgio e desvenda mistérios que moldaram sua vida (c/áudio)
03/03/26 - 09:43 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 03 Mar (Inforpress) – O kitesurfista Mitú Monteiro despe-se da máscara de campeão para revelar o homem por trás da lenda, abre o coração sobre o seu refúgio e desvenda os mistérios que moldaram a sua vida e a sua visão do mar.

Muitos dizem que o Sal é uma ilha que vive de costas para a agricultura e de frente para o mar.

Para o “miúdo da Ponta Preta”, hoje com 42 anos, nascido a 07 de Julho de 1983, que começou com pranchas improvisadas, o mar era uma saída, a sua paixão, e nunca pensara que um dia a sua ligação com a água deixaria de ser uma brincadeira para se tornar o seu legado.

Otaniel Jorge Monteiro é o nome de baptismo, mas para o mundo e para as ondas ele é simplesmente Mitú, a Lenda do Kitesurf.

O campeão carrega no nome uma herança afectiva: o “Nitú” dado pela mãe tornou-se Mitú na voz da tia-avó, um erro de pronúncia ficou, e o nome cresceu tanto quanto o homem que hoje leva a bandeira de Cabo Verde para o topo do pódio.

Nesta conversa intimista, longe da adrenalina das competições, mergulhamos no lado menos conhecido de Mitú Monteiro, o homem que fez história como o primeiro cabo-verdiano a conquistar um título mundial e que revolucionou o desporto ao inventar o estilo “strapless”.

Agora como um livro aberto, disposto a ser folheado, Mitú, nascido na ilha do Sal, na cidade turística de Santa Maria, antes pacata vila piscatória, mais precisamente na Rua Amílcar Cabral, percorre as páginas da sua vida com serenidade e tom manso, revelando o homem por trás do campeão mundial.

As memórias de infância de Mitú têm cheiro a sal e cor do Atlântico, o mar não era apenas um vizinho de Santa Maria, era a sua verdadeira paixão, o seu parque de diversões inegociável.

A sala de aula competia, injustamente, com as ondas, e não eram raras as vezes que Mitú faltava ou chegava tarde, trocava frequentemente os livros pela adrenalina de deslizar nas ondas para viver a sua paixão.

“A minha infância foi maravilhosa. Não havia telemóvel, inventávamos brinquedos porque naquele tempo não havia nada”, recorda com um brilho nostálgico no olhar.

A falta de tecnologia, porém, foi preenchida pela imensidão da baía de Santa Maria, onde o mar era o seu destino irresistível, e fugia de casa para observar os barcos que chegavam e os peixes que traziam.

“Passei uma infância realmente “super cool”, muito ligado à natureza, às aves, às tartarugas, caranguejo. Passava mais tempo dentro de água do que fora de água. Também fazia caça submarina”, conta, descrevendo um tempo onde a liberdade era o bem mais precioso.

Olhando para trás, Mitú reconhece que a sua infância, as vivências no mar foram um treino invisível, uma espécie de estágio involuntário, pois, tudo o que viveu enquanto crescia acabou por ser determinante para o seu sucesso, como se cada experiência de menino o tivesse preparado para o destino que o esperava.

Com uma base alicerçada na educação religiosa da Igreja do Nazareno, valores que ainda hoje norteiam a sua formação pessoal e social, Mitú seguiu os estudos até ao 8.º ano, no entanto, após chumbar por duas vezes, decidiu deixar as salas de aula para abraçar o mundo do trabalho aos 16 anos.

Naquela altura, o windsurf já era a sua paixão, mas a barreira burocrática dos vistos impediu-o de atravessar fronteiras para competir internacionalmente e lançar a carreira profissional que ambicionava.

Apesar de ter tido sucesso “na escola da vida”, reconhecendo o papel do acaso e das oportunidades, transformado num poliglota autodidacta, dominando seis idiomas e coleccionando vivências pelo mundo, Mitú não descarta o valor do ensino formal.

“Digamos que na minha vida tive muita sorte, conheci várias pessoas, viajo muito, falo seis idiomas diferentes, aprendi assim no mar, mas acho que a escola é super importante”, manifestou deixando um conselho implícito às novas gerações.

Sem condições financeiras para adquirir equipamentos profissionais, teve de construir o seu próprio caminho, literalmente, na medida em que, com os materiais que encontrava como desperdício, como sacos de serapilheira e bóias de óleo, Mitú fabricou a sua primeira prancha.

Entretanto, a falta de dinheiro para comprar uma prancha não travou o jovem Otaniel, pelo contrário, estimulou a sua criatividade.

O resultado era rudimentar, mas era tudo o que precisava para se lançar ao mar e começar a desenhar o seu destino como campeão mundial.

“Cozia e ficava no formato de uma cama”, descreve com um sorriso, lembrando a engenhosidade rústica com que se lançava ao mar, transformando o que era lixo na sua primeira ferramenta de sonho.

“Tinha mais ou menos seis ou sete anos. Divertia-me na praia o dia todo. Nem sabia nadar direito e a minha mãe ficava aflita”, recorda Mitú, para quem a paixão pelo mar era maior que o medo e os acidentes aconteciam.

“Às vezes me afogava e os pescadores me levavam para casa”, conta, confessando que a mãe passou por “maus bocados” devido à sua audácia infantil.

“Eu não tinha medo e o perigo espreitava”, narra, traçando o retrato de um menino que já desafiava o oceano antes mesmo de saber dominá-lo, e hoje vê Santa Maria transformar-se de uma pacata vila de pescadores num “hub” turístico global.

Embora a juventude de Mitú tenha sido marcada por relações amorosas passageiras, o seu verdadeiro compromisso era com o oceano e o mar acabou por partilhar o protagonismo quando encontrou a sua cara-metade.

Casado há 16 anos, com uma cidadã estrangeira que adoptou Cabo Verde como seu lar, Mitú construiu uma família sólida, com três rapazes, e o orgulho transborda quando fala do primogénito, de 13 anos, que já segue as pisadas do pai e, nas palavras do campeão, demonstra um nível técnico superior ao que ele próprio exibia na mesma idade.

Para Mitú, o mar deixou de ser um palco solitário e não esconde a satisfação de ter contagiado os seus com o amor pelas ondas.

“Partilhamos a mesma paixão. Imagina eu, a minha mulher e os meus três filhos de 13, 8 e 5 anos na água a fazer kite... partilhamos a mesma emoção juntos”, descreve o campeão do mundo sublinhando que o desporto se tornou o elo mais forte entre os cinco.

Embalado nas suas memórias, lembrou que foi trabalhando arduamente que começou a poupar, transformando cada salário numa etapa para realizar o sonho de ter a sua primeira prancha de kitesurf.

Perseguindo o seu destino, o jovem Otaniel, o Mitú, tornou-se o primeiro cabo-verdiano a conquistar um título mundial, mas mais do que títulos, inventou o estilo strapless (sem alças), uma revolução que mudou o kitesurf mundial.

O conforto do presente não apaga a memória das dificuldades de ontem, pelo contrário, serve de lembrete do longo caminho percorrido deste campeão que foi criado apenas pela mãe, de quem tem muito respeito e carinho.  

“Hoje tenho o meu carro, as minhas pranchas, escola de kite, mas eu comecei do zero”, recorda Mitú, sublinhando que sem recursos familiares, a sua ascensão foi erguida degrau a degrau.

“Estribado no meu próprio esforço e empenho, com muito sacrifício, porque a minha mãe não tinha meios. O meu percurso não foi fácil, mas hoje dou graças a Deus por tudo”, conclui com humildade.

Longe do fulgor das festas e da adrenalina das competições, o homem que desafia as ondas revela-se surpreendentemente caseiro.

Para Mitú, o porto seguro é a família. Gosta de criar, fazer decoração, cozinhar e ajuda nas lides domésticas, mas não por obrigação, esclarece entre risos.

Na cozinha, o mar continua presente através do paladar e a sua especialidade é o peixe, com realce para um carpaccio que, conforme garante, sabe preparar como ninguém.

O futuro de Mitú não se limita às ondas que conquista.

O campeão almeja democratizar o kitesurf, levando a experiência a todas as ilhas do país, e sonha ver uma equipa de desportos náuticos de Cabo Verde brilhar nos Jogos Olímpicos.

No horizonte, está também a concretização de um desejo antigo, isto é, a criação da Fundação Mitú Monteiro, um projecto que, como confessa, “vem sendo cozinhado há vários anos”.

Hoje, o campeão mundial carrega a responsabilidade de ser a referência máxima para tantos jovens no Sal que, ao olharem para o horizonte, acreditam que podem conquistar o mundo sem sair das águas de Cabo Verde.

SC/HF

Inforpress/Fim

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