
Cidade da Praia, 27 Abr (Inforpress) – A obra Os Rebelados da Ilha de Santiago, do autor Júlio Monteiro Júnior, é lançada esta terça-feira, na Livraria Pedro Cardoso, numa edição facsimilada que recupera um estudo considerado confidencial durante o período colonial.
Em declarações à Inforpress, o responsável pela edição, Mário Silva, explicou que o livro resulta de um relatório produzido entre 1962 e 1964, publicado pela primeira vez em 1974, após o 25 de Abril.
A obra, diz o responsável da Livraria Pedro Cardoso, analisa, com base documental, a realidade dos chamados “Rabelados” da ilha de Santiago, frequentemente associados, de forma errada, a movimentos de natureza política.
Segundo o editor, o estudo demonstra que esta comunidade foi sobretudo movida por convicções religiosas, resistindo às reformas introduzidas pelos missionários católicos na década de 1940.
“Os Rabelados mantiveram-se fiéis às práticas tradicionais, recusando mudanças impostas, o que gerou conflitos com as autoridades coloniais”, afirmou.
A obra aborda ainda outros factores de tensão, como a recusa da pulverização das habitações no âmbito das campanhas de erradicação da malária, levando muitas famílias a abandonarem as suas casas e a viverem em “funcos”, estruturas improvisadas.
O livro evidencia também episódios de repressão, incluindo detenções, julgamentos e deportações para outras ilhas, atingindo homens e mulheres.
Para o editor, trata-se de um documento de elevado “valor histórico, antropológico e jurídico”, que ajuda a compreender o isolamento social, o analfabetismo e as condições de vida no interior de Santiago nos anos 60.
Mário Silva considera esta reedição “um dos pontos altos editoriais de 2026”, sublinhando que muitas das propostas de desenvolvimento e inclusão social defendidas pelo autor continuam actuais.
Júlio Monteiro Júnior indica no livro que na altura em que investigou sobre a comunidade de rebelados o número não devia exceder a 2000 pessoas, mas que com a mesma “mentalidade” existiam “milhares de indivíduos na grande ilha”.
O lançamento insere-se numa política de recuperação de obras raras e pretende estimular o debate sobre a história e identidade nacional de Cabo Verde, com futuras apresentações previstas em comunidades do interior da ilha de Santiago.
LC/ZS
Inforpress/Fim
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