Calor extremo põe cidade da Praia sob brasas, altera rotinas e expõe vulnerabilidade urbana

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Calor extremo põe cidade da Praia sob brasas, altera rotinas e expõe vulnerabilidade urbana
26/08/26 - 12:45 pm

***Por: Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 26 Ago (Inforpress) – Trabalhadores ao ar livre e residentes de bairros periféricos, entre o betão em expansão e a falta de sombras, enfrentam picos de temperatura que testam a saúde pública e exigem uma nova infra-estrutura urbana.

Com o termómetro a registar frequentemente valores superiores a 32°C, cuja sensação térmica é substancialmente amplificada pelo betão, pela escassez de sombras e pelos índices de humidade característicos da época, a convivência com o calor extremo deixou de ser um fenómeno sazonal moderado para se converter numa emergência diária de adaptação.

O impacto do aumento progressivo das temperaturas e os episódios prolongados de “mormaça” – tempo abafado, quente e húmido, muitas vezes com o céu nublado ou esbranquiçado, onde quase não se sente vento – estão a transformar profundamente a rotina diária da população na cidade da Praia, e não só, mas em Cabo Verde em geral, impondo desafios críticos à saúde pública, às condições de trabalho ao ar livre e à resiliência das infra-estruturas urbanas da capital cabo-verdiana.

Trabalhadores ao ar livre, por exemplo, enfrentam picos térmicos severos, enquanto habitações sem isolamento transformam bairros em ilhas de calor. 

Entre os sectores mais afectados estão a construção civil, a limpeza urbana, vendedores informais, cujas forças de trabalho operam com exposição directa contínua ao sol. 

Em estaleiros de obras localizados em zonas de expansão, como Palmarejo Grande, o calor reflectido pelas estruturas de cimento reduz significativamente o rendimento e aumenta os riscos de episódios graves de desidratação e exaustão térmica.

“Antigamente o calor apertava no meio do dia, mas agora logo às 8:00 da manhã o sol já queima na pele. Bebemos litros de água, mas a meio da tarde a cabeça começa a latejar. Temos de parar mais vezes à sombra, se não o corpo não aguenta”, relata Mário, de 40 anos, pedreiro há duas décadas.

“Fala-se em alterações climáticas. Na verdade, o calor era forte em Agosto ou Setembro, mas agora parece que dura o ano todo e que queima mais duro. Às 11:00 já não conseguimos encostar as mãos nas ferramentas de ferro sem luvas. Temos de gerir o ritmo. Se fores rápido, dás em tonto. A cabeça começa a girar”, conta Sérgio, outro colega, enquanto limpa a testa com a manga da camisola.

Cenário idêntico vivenciam as equipas de limpeza urbana que percorrem bairros como Achada Santo António, Achada São Filipe e outras zonas.

“O sol ardente, desorienta uma pessoa, o que deveria obrigar a adaptações como a antecipação dos turnos de varrição para as primeiras horas do dia e o improviso de protecção solar… Mas não há nada a fazer. ‘Busca pão di fidjo é cansado’”, exteriorizou Nela, trabalhadora da limpeza urbana, enquanto movia a sua vassoura e uma pá para juntar o lixo numa das artérias da cidade. 

Se na rua o sol castiga, dentro de muitas habitações na Praia o cenário não é mais animador, pois o impacto térmico penaliza a intimidade familiar nas zonas periurbanas e bairros como Safende, Alto da Glória ou Achada Grande Trás, para só citar alguns.

Nestas comunidades, a prevalência de habitações construídas em bloco de cimento sem revestimento e coberturas em chapa de zinco cria um ambiente interno com fraco isolamento.

“Dentro de casa fica mais quente do que na rua. À noite a placa expulsa o calor que acumulou o dia todo. As crianças não conseguem dormir bem e acordam cansadas para ir à escola, mas felizmente agora estão de férias. Sem ventoinha, a única solução é ficar na calçada até o ar arrefecer um bocado”, descreve Maria de Fátima, moradora de Safende e mãe de três filhos.

Dona Eugénia, de 61 anos, passa a tarde sentada num banco de madeira à porta de casa, na sombra projectada pela parede do vizinho, porque dentro de sua casa, o ar é irrespirável.

“A minha casa guarda o calor todo. De noite, as paredes parece que continuam a deitar o calor do dia para fora. Não se consegue dormir. Abro a janela, mas não corre vento nenhum. O meu neto mais novo ganha logo feridas na pele por causa do suor. Ficamos aqui fora até muito tarde só para ver se a casa arrefece um pouco”, desabafou.

Paralelamente, profissionais de saúde associam estas temperaturas extremas ao aumento de casos de hipertensão, enxaquecas e problemas de pele causados pela sudação excessiva, identificando as crianças e os idosos como os grupos mais vulneráveis.

Para os entendidos na matéria a grande questão é que a cidade da Praia cresceu muito rapidamente e o betão acabou por dominar a paisagem urbana, criando o que se chama de “ilhas de calor”, pelo que, sem vegetação suficiente e com edifícios que absorvem e retêm a radiação solar o dia todo, a cidade acaba por funcionar como um acumulador térmico.

Nesta base, defendem que para responder a este desafio, a infra-estrutura urbana precisa de evoluir em algumas frentes principais, nomeadamente, sombra e arborização do espaço urbano, materiais e aposta na arquitectura bioclimática, entre outras valências.

Conforme explica Bruno Silva, jovem recém-formado em arquitectura, a forma como os edifícios e as vias públicas são construídos precisa de mudar, priorizando tintas reflectoras, pavimentos permeáveis que não retenham tanto calor e soluções que permitam a circulação do vento.

“O sol do meio-dia na Praia não perdoa. O asfalto parece libertar uma vaga visível de calor sufocante e a humidade vinda do mar transforma o ar numa massa densa”, ilustrou.

No seu entendimento, sem estas mudanças na infra-estrutura, a cidade torna-se cada vez mais dura e desgastante para quem depende do espaço público para trabalhar ou deslocar-se diariamente.

Assim, enquanto as soluções de longo prazo não chegam à escala necessária, a população da Praia vai criando as suas próprias tácticas de sobrevivência diária. 

Na capital, adaptar-se ao calor já não é uma escolha, é uma questão de resistência.

SC/HF

Inforpress/Fim

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