Boa Vista: Na Pocilga em Março as mulheres não receberam flores, mas lutam e são resilientes o ano inteiro

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Boa Vista: Na Pocilga em Março as mulheres não receberam flores, mas lutam e são resilientes o ano inteiro
01/04/26 - 10:17 am

***Por: Margareth G. Lima, da Inforpress***

Sal Rei, 31 Mar (Inforpress) – Bitina, Belita e Olívia residem na zona da pocilga de Sal Rei e, entre traumas de violência, falta de saneamento, exclusão social, revelam uma face da ilha da Boa Vista que sobrevive longe do turismo.

No âmbito do “Março, Mês da Mulher”, a Inforpress percorreu o caminho contrário das celebrações que o mês acarreta, trocando o luxo dos jantares em hotéis de primeira e perfume das flores, pela dura realidade dessas três mulheres que vivem à "margem" do desenvolvimento, em barracas de materiais precários, fumo da lenha, rodeadas de entulhos e cheiro de esterco.

Belita, Olívia e Bitina, três mulheres naturais de Santiago residentes na Boa Vista, não receberam flores em Março, mas como todos os outros dias, erguem o seu próprio monumento à sobrevivência, carregando baldes de água, lidando com a falta de saneamento e tentando proteger o que resta da sua dignidade num ambiente que a sociedade prefere não ver.

Ângela Cabral, a "Belita", de 46 anos, é uma das faces desta realidade. Vive num ritmo acelerado, como se tentasse fugir do próprio destino.

Há nove anos na Boa Vista, trocou o bairro da Boa Esperança pela "Pocilga" para fugir aos vícios e conflitos, mas encontrou novos fantasmas.

Belita relatou ter sido vítima de violação na sua própria habitação há cerca de dois anos, um crime que, segundo afirma, continua sem justiça e a faz temer ficar sozinha na sua barraca.

Trabalha em limpezas, e descreve um quotidiano marcado pela urgência e pela falta de saneamento. Sem casa de banho, recorre a baldes e a "tchada" para as suas necessidades, o que tem provocado problemas de saúde recorrentes.

Mesmo perante a precariedade, Belita não abdica da vaidade, desfilando vestidos e bolsas como um escudo contra a escassez.

Afirma que a sua alegria é um escudo contra a fome e que o seu sonho é simples é vender o "chão" que possui na Barraca para conseguir comprar passagem para viajar para o exterior.

A poucos metros, o cenário muda na barraca de Olívia Correia, de 64 anos, que está, há dois anos na ilha com o seu marido, é o retrato da resistência silenciosa.

Transformou a sua barraca num espaço de ordem, com o chão coberto de esteiras e vasos de plantas. “Vamos onde a nossa situação permite”, explica com uma aceitação resignada.

Com problemas de hipertensão e dificuldades de locomoção, a senhora encontra-se na inércia burocrática, sem conseguir o atestado de pobreza necessário para medicamentos gratuitos.

O cheiro intenso da zona causa-lhe enxaquecas constantes, mas Olívia recusa-se a perder a fé, oferecendo plantas a quem a visita como gesto de "morabeza" e o seu maior desejo é de uma casa pequena com uma casa de banho real para passar os seus últimos dias em paz.

Ernestina Silva, a "Bitina", diz ter entre os 50 e 60 anos, foi a primeira a fixar-se na zona, mesmo depois de avisada pelos moradores que esse lugar sujo não era para mulher, construiu o seu lar.

Já perdeu animais em incêndio e peste suína, mas recomeça sempre a sua criação de porcos pequenos.

Sem electricidade, utiliza a geleira como armário e vive num ciclo de compras diárias para que a comida não se estrague.

Bitina carrega uma dor antiga de uma violação na adolescência não punida. Na sua sabedoria popular, ela distingue o pecado da agressão, defendendo que os homens devem amar as mulheres, elas devem ser respeitadas e trabalhadoras.

Trabalho essa é a sua maior alegria. Ao contrário das vizinhas, Bitina gosta da “tranquilidade do lugar” e sonha com sua casa e a urbanização daquela zona.

Estas três mulheres são o rosto de uma Boa Vista e Cabo Verde que não aparece nos catálogos turísticos.

São mulheres que não recebem flores da vida, mas, ainda assim, podem sorrir, sonham, têm fé e batalham todos os dias porque, como disse Dona Olívia, "coisas que gostamos não desistimos".

E elas, claramente, não desistiram da vida.

MGL/HF

Inforpress/Fim

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