Efeito da emigração levanta questões para campanha eleitoral em Cabo Verde – sociólogos

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Efeito da emigração levanta questões para campanha eleitoral em Cabo Verde – sociólogos
02/05/26 - 06:43 am

Praia, 02 Mai  (Inforpress) – Sociólogos cabo-verdianos ouvidos pela Lusa alertaram que, além dos impactos económicos mais mediatizados, a emigração está a ameaçar as redes de cuidado familiar em Cabo Verde, dando como exemplo a situação das crianças quando os pais emigram.

"Os filhos continuam a ficar com as avós, com as madrinhas, com as mesmas pessoas, mas esta rede está mais fraca. A sociedade é maior, os perigos aumentaram e há transformações que podem prejudicar o bem-estar das crianças e dos adolescentes. Quando essa rede falha, cabe ao Estado assegurar o suporte", disse à Lusa o sociólogo Redy Lima, ao antecipar questões que o debate sobre a emigração pode suscitar na campanha para as legislativas de 17 de Maio.

Segundo o especialista, no passado existia "uma rede muito forte" que garantia o acompanhamento das crianças quando os pais emigravam, mas essa estrutura "está hoje mais fragilizada, reflectindo uma sociedade mais individualizada".

Redy Lima apontou dois fatores principais para o aumento da emigração: por um lado, a facilitação das políticas migratórias nos países destino, nos últimos anos, sobretudo para Portugal e Europa, por outro um crescente "mal-estar interno", marcado pelo aumento do custo de vida, empobrecimento da população e falta de oportunidades no mercado de trabalho - opinião do sociólogo que choca com a posição do Governo que apresenta dados de redução dos níveis de pobreza, bem como de queda do desemprego para níveis recorde.

Redy Lima assinala, sobretudo, a saída "dos melhores talentos".

"Quem é que fica para governar o país? Isto é um problema", afirmou, sublinhando o impacto económico da emigração, nomeadamente a perda de mão-de-obra qualificada já sentida em sectores como o turismo e a construção civil e que tem feito parte do debate político.

O sociólogo enquadrou ainda o actual momento migratório como parte de um ciclo, intensificado no período pós-pandemia de covid-19, aproximando-se de picos registados nas décadas de 1970 e 1980.

"A emigração é uma resposta à crise. Sempre foi assim, mas hoje há um dado novo: muitos jovens saem e não querem voltar. Isso é problemático", acrescentou.

A emigração, a par da economia e do emprego, tem sido tema na pré-campanha para as eleições legislativas em Cabo Verde.

Neste contexto, Redy Lima considera que o tema pode ser enquadrado numa perspetiva mais ampla, dentro de temáticas "como a juventude ou as condições sociais", afirmou.

Ainda assim, reconheceu que o tema tem sido explorado politicamente nos últimos anos, com leituras divergentes entre partidos.

"A oposição associa a emigração ao desespero juvenil e à falta de oportunidades, enquanto o partido que suporta o Governo defende que a saída resulta de oportunidades no exterior", referiu.

O sociólogo considerou que existe também "um discurso político irresponsável que tenta normalizar a situação".

"Por um lado, é verdade que sempre houve saída de jovens, porque vivemos um paradoxo de oportunidades: há muitos formados, com expectativas, mas o mercado de trabalho cabo-verdiano não consegue dar resposta. Por isso, acabam por sair. Agora o problema é a normalização desta realidade, como se fosse inevitável. É preciso criar condições para que menos jovens tenham de emigrar", concluiu.

O sociólogo Elísio Semedo disse à Lusa que a emigração deve estar no centro do debate eleitoral.

"Todos os temas são relevantes em política. Este terá de ser discutido nas campanhas. Os partidos têm de apresentar propostas, porque ainda há jovens que podem decidir ficar, se houver condições", afirmou, alertando também para o impacto demográfico da saída de jovens, agravado pela queda da natalidade.

"Estamos numa linha vermelha. Antigamente, uma mãe tinha seis a dez filhos. Agora, no máximo, tem três. É esta a realidade que temos. Nós estamos a descer no contexto demográfico e pouca gente tem consciência disso. Já é altura dos demógrafos, que são especialistas da área, falarem disso abertamente", explicou, acrescentando que a falta de alternativas continua a empurrar jovens para fora do país.

"Não há alternativa para toda a gente. Os jovens têm o direito de procurar uma vida melhor e, não encontrando essas possibilidades internamente, acabam por sair", concluiu.

O sociólogo também alerta para o fenómeno menos debatido das redes familiares, que acolhem as crianças quando os pais emigram.

"Antes havia um cuidado mútuo e uma forma mais homogénea de educar. Mesmo sem escolaridade, as avós tinham uma forte capacidade de acompanhamento. Hoje, o contexto é diferente, há mais exigências e quem fica nem sempre tem condições para acompanhar as crianças, sobretudo na adolescência", afirmou.

Segundo o especialista, esta fragilidade torna-se mais evidente num contexto social mais complexo, em que os cuidadores enfrentam maiores dificuldades para acompanhar o desenvolvimento e a educação dos mais novos.

"Essa avó não consegue controlar o seu neto principalmente quando entra na adolescência. É uma situação que nos coloca numa posição mais crítica", sustentou.

Dados recentes apontam também para um aumento da mobilidade entre Cabo Verde e a Europa.

Segundo os serviços consulares da embaixada de Portugal, o número de pedidos de vistos (Schengen e nacionais) cresceu 62% em 2025 face a 2023, enquanto os vistos com fins laborais atingiram 6.894 no último ano.

O fenómeno tem sido acompanhado por alertas do setor empresarial, que já aponta para falta de mão-de-obra em algumas áreas, num contexto em que a saída de trabalhadores continua a pressionar o mercado interno.

Inforpress/Lusa/Fim

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