
Macau, China, 02 Mai (Inforpress) – Um estudo académico aponta que a China tem vindo a consolidar a sua presença tecnológica e económica nos pequenos países lusófonos da África Ocidental, nomeadamente Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Um relatório, assinado por investigadores da Universidade de Georgetown e do think tank The Digital Economist, destacou que estes Estados, "historicamente marcados pela fragilidade económica e política", encontram na parceria com a China uma alternativa às "tradicionais ligações com o Ocidente".
"Estes pequenos países contam uma história grande e globalmente significativa sobre a melhor forma de prosseguir o desenvolvimento internacional nos mercados emergentes", escrevem os autores, William Vogt (The Digital Economist), Guilan Massoud-Moghaddam e Robert Miles Chong (Universidade de Georgetown).
Em declarações à Lusa, Vogt sublinhou que “a China está a construir relações mais estreitas com os países de língua portuguesa através da ligação cultural partilhada com Macau” e recordou que Pequim “tem também um historial de apoio a camaradas comunistas em alguns destes países durante os primeiros anos das respetivas independências”.
Segundo o académico, a situação actual nestes países “alinha-se com algumas das prioridades de investimento direto estrangeiro de Pequim, nomeadamente a promoção das inovações tecnológicas avançadas da China”. Há, acrescenta, “uma convergência na promoção da disseminação de tecnologia avançada de vigilância e na introdução de componentes, ferramentas e infraestruturas essenciais para a sua plena implementação em novos mercados”.
“Os países de língua portuguesa destacam-se neste contexto porque estão motivados a aplicar tais programas para reforçar a segurança, enquanto a China procura difundir as suas inovações tecnológicas de ponta no mercado global mais amplo”, afirmou Vogt, sublinhando que para Pequim isto tem o efeito adicional de consolidar relações económicas mais firmes e uma penetração de mercado já visível em alguns destes países.
Segundo o estudo, na Guiné-Bissau, Pequim tem investido em agricultura, energia e telecomunicações, incluindo acordos com a Huawei e apoio à produção de caju.
Na investigação recorda-se que "a combinação de 500 anos de subdesenvolvimento português e um tipo de socialismo estatal garantiu que o país nunca fosse capaz de aproveitar os seus recursos naturais e humanos".
Apesar da instabilidade política, a Guiné-Bissau aderiu à iniciativa 'Uma Faixa, Uma Rota' em 2021, procurando reforçar a cooperação com a China.
A iniciativa lançada pelo Presidente chinês, Xi Jinping, em 2013, é descrita como uma estratégia global de infraestrutura e desenvolvimento, que visa ligar a Ásia, Europa e África por meio de rotas terrestres e marítimas, fomentando o comércio, investimentos e a influência económica chinesa.
Em Cabo Verde, os investimentos chineses concentram-se no turismo e nas tecnologias de informação e comunicação. Projectos como a instalação de cabos submarinos de fibra ótica pela gigante tecnológica Huawei são apontados como exemplos da aposta de Pequim em transformar o arquipélago num destino internacional e num 'hub' digital regional.
“Cabo Verde é um país com intermediação financeira fraca e escassa diversidade de recursos naturais”, nota-se no estudo, sublinhando que o investimento externo directo tem sido uma “tábua de salvação” para a economia.
Já em São Tomé e Príncipe, Pequim tem privilegiado o sector agrícola e o desenvolvimento portuário, com vista a explorar o potencial energético e marítimo do arquipélago.
A decisão de cortar relações com Taiwan em 2016 abriu caminho a novos acordos bilaterais, incluindo projectos de TIC sustentáveis e apoio à investigação agronómica. No relatório descreve-se o arquipélago como "mais do que a terra do cacau e do café", apontando-o como o "Qatar do Golfo da Guiné" pela sua posição estratégica.
Para Vogt, o posicionamento global da China revela “uma provável compreensão das prioridades e dos caminhos de desenvolvimento enfrentados por estes países”, que podem ser atraídos pela abordagem de Pequim “enquanto potência não ocidental, sem o peso histórico dos abusos das políticas imperialistas ocidentais”.
Hoje, acrescentou, “a China oferece benefícios socioeconómicos plausíveis a estes países através de produtos, programas e iniciativas considerados úteis para um desenvolvimento digital sustentável”, ao mesmo tempo que mantém “um historial de fornecer oportunidades para desenvolver outras indústrias lucrativas através de investimento e infraestruturas turísticas”.
Inforpress/Lusa/Fim
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