
Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress
Cidade da Praia, 15 Fev (Inforpress) – O professor Wlodzimierz Szymaniak, homem que trocou o frio da Polónia pela liberdade das ilhas, não precisa de muito para se sentir realizado, basta-lhe o silêncio de um livro e o mergulho no mar ao fim da tarde.
A Inforpress foi à conversa com Wlodzimierz Szymaniak para conhecer o outro lado deste homem alto, elegante e de tez clara, que trocou o frio da Polónia, seu país natal — onde o mar é frio e o silêncio era uma imposição política — pela liberdade das ilhas.
Aos 62 anos, o professor Szymaniak, que encontrou a sua liberdade definitiva pelas ilhas de Morabeza, não precisa de muito para se sentir realizado.
Basta-lhe o silêncio de um livro, a precisão de um verso de Baudelaire e o mergulho ritual no mar ao fim da tarde, quando o sol começa a baixar o tom.
Szymaniak não é apenas um professor; é um “romântico polaco” que encontrou o seu porto de abrigo no Atlântico. Tendo desembarcado na Cidade da Praia para um projecto de três anos, acabou por ficar uma vida inteira.
Conta que, em 2001, surgiu o convite para integrar a comissão instaladora da Universidade Jean Piaget em Cabo Verde, e o que era para ser uma missão técnica revelou-se um chamado de infância pela África.
“Não pensei duas vezes”, recorda, lembrando que desembarcou na Cidade da Praia, em 2002, aos 38 anos. Trazia na bagagem o doutoramento e o entusiasmo, trocando a previsibilidade europeia pela “surpresa” da investigação no arquipélago.
Para ele, enquanto a Europa parece um livro já lido, Cabo Verde é um manuscrito aberto, rico em património e conteúdos originais por descobrir.
Do romantismo melancólico da juventude na Pomerânia ao mergulho ritual no mar de Quebra Canela — como ponto de equilíbrio psicológico —, Szymaniak, homem de frases curtas e persistências longas, ensina-nos que a liberdade não se grita: escreve-se em livros e vive-se na paciência de quem soube esperar pelo amor e pelo destino.
Para entender o professor discreto que hoje caminha pelas ruas da capital é preciso recuar à Polónia da sua juventude.
Oriundo de uma família de classe média que priorizava a educação, Szymaniak cresceu numa casa onde os livros eram o maior património.
Lembra-se, com alguma tristeza, de que, sob o regime comunista, a universidade era um campo de batalha silencioso, onde muitos dos seus professores, conforme narra, pagaram um preço alto por não se alinharem com o poder, tendo alguns perdido o trabalho ou enfrentado a prisão.
Se a política era cinzenta, a literatura era o seu refúgio.
Foi nesse ambiente de restrição que moldou o seu carácter. Conta que, naquela época, ele e os amigos cultivavam uma filosofia particular: desprezavam o “amor feliz” das telenovelas e acreditavam que o sentimento autêntico deveria ser difícil e profundo.
Essa seriedade intelectual trouxe consigo um valor inegociável que ele carregaria para sempre: a liberdade.
O destino foi veloz e pregou-lhe uma peça doce logo na chegada, pois conheceu a sua esposa — a mulher da sua vida — no primeiríssimo dia em que chegou a Cabo Verde: amor à primeira vista, mas apenas do lado dele.
“Sou um homem persistente”, confessa entre risos, relatando que levou quase um ano de amizade e distância até que o coração dela falasse mais alto.
“Levou quase um ano para vencer a distância que ela guardava. A persistência supera a adversidade”, revela, sorrindo ao lembrar-se de algumas “estupidezes” por amor.
Hoje, casados há duas décadas e com uma filha de 19 anos, o “romântico infeliz” da juventude polaca deu lugar ao homem que encontrou a paz num lar crioulo, num lar cabo-verdiano.
Na rotina de Szymaniak, a Polónia e Cabo Verde coabitam em harmonia. No paladar convivem o chucrute e a sopa de beterraba da sua terra natal com o carpaccio de peixe, o polvo e a lagosta das ilhas.
Embora a esposa brinque que ele já não cozinha como no tempo em que preparava refeições para ela quando o visitava, o professor — que mantém o gosto pelos prazeres simples, como o chocolate amargo e o café matinal — explica, entre risos, que na altura ela ia à sua casa como “turista”.
“Gosto de cozinhar, mas agora cozinho pouco. Gosto de alguns pratos de pescado, carpaccio, peixe no forno, lagosta, camarão, alguns pratos polacos, como chucrute e sopa de beterraba. Gosto de comer e de uma boa comida”, exterioriza com um largo sorriso.
Quanto à vida social, é propositadamente contida. Prefere o cinema e o teatro às grandes festas. Tem alguns amigos e rituais fixos: acorda às seis e meia e, ao fim da tarde, o seu refúgio é a natação.
A perda recente da mãe, em 2025, e a do pai, anos antes, parecem ter reforçado a sua introspecção e a urgência de viver sob os seus próprios termos.
Szymaniak define-se hoje como um “filho adoptivo” de Cabo Verde, sentindo-se mais em casa aqui do que na Europa, valorizado não por prémios, mas ao encontrar antigos alunos que hoje são profissionais de sucesso.
“Sinto-me realizado através deles”, afirma com modéstia.
Questionado sobre o que a vida lhe ensinou, a resposta é curta: “Paciência. E que nunca devemos desistir dos nossos sonhos”, conclui o mestre que se assume “desarrumado”, mas que encontrou a ordem perfeita entre os livros, o mar e a liberdade.
O seu olhar para o futuro é pragmático e poético: quer apenas “algumas venturas” e deixar livros escritos em português, a língua que escolheu para traduzir a sua vida.
O plano inicial de ficar apenas três anos transformou-se em quase um quarto de século. E aqui, o coração já não precisa de ser infeliz para ser verdadeiro: bastam-lhe os livros, o mar e a paciência de quem aprendeu que o destino, às vezes, é uma construção de persistência.
“Cabo Verde adoptou-me”, diz, com a economia de palavras de quem prefere deixar que a vida fale por si.
O homem que escolheu ser livre através dos livros e do mar construiu uma vida onde o essencial cabe no bolso: um chocolate amargo, um verso de Baudelaire e a certeza de que nunca se deve desistir de um sonho.
SC/JMV
Inforpress/Fim
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