Gualberto do Rosário, homem discreto que abre seu coração para família e dança mazurca com entusiasmo (c/áudio)

Inicio | Sociedade
Gualberto do Rosário, homem discreto que abre seu coração para família e dança mazurca com entusiasmo (c/áudio)
30/01/26 - 03:00 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 30 Jan (Inforpress) - Gualberto do Rosário se descreve como discreto, abre seu coração para a família, adora a sua ilha natal, onde se perde nas rabecadas e dança mazurca com entusiasmo, vivendo uma reforma activa onde o tempo é escasso.

Falar de Gualberto do Rosário é mergulhar na história contemporânea de Cabo Verde, mas numa entrevista intimista o valor real está nas entrelinhas, as memórias, as emoções e o lado humano que nem sempre transparece nos cargos políticos que ocupou.

Esta entrevista com António Gualberto do Rosário Almada, seu nome completo, conhecido carinhosamente como Tuta, nominho posto pela mãe, oferece um olhar profundo sobre a sua trajetória pessoal, profissional e os valores que o guiam.

O antigo governante se disponibilizou para esta conversa à Inforpress, para “bisbilhotar-lhe”, bem entendido, um pouco a sua vida enquanto homem, ser humano e cidadão comum, onde se revela ser um indivíduo que não gosta de rotinas e acredita que a vida é uma aprendizagem constante, mesmo aos 75 anos.

Neste seu desabafo, ficou claro que o maior orgulho de Gualberto do Rosário não são apenas os cargos que ocupou, mas sim a sua integridade, a ligação profunda a São Nicolau e o amor pela sua família.

Falando em família, é casado com uma mulher 40 anos mais nova, com quem tem dois filhos, uma menina de 06 anos e um rapaz de 03, mas ao todo tem cinco filhos, três de outras relações amorosas.

Sobre a diferença de idade, entre ele e a esposa, Gualberto do Rosário é pragmático, sublinhando que o problema da juventude e da maturidade é uma questão sobretudo do espírito.

Para ele, a harmonia dessa relação de dez anos baseia-se em valores cristãos partilhados e numa cumplicidade que transcende os números.

“A nossa relação é ótima. É uma experiência diferente. Sempre me dei bem e me relacionei bem com os jovens. Na escolha da minha actual mulher, os valores contaram muito. É sensata e equilibrada. É uma pessoa educada nos valores cristãos, que são os meus também. Isso contou muito. Relacionamos muito bem”, comentou.

Gualberto do Rosário, uma das figuras mais multifacetadas da história contemporânea de Cabo Verde, nasceu e cresceu em Tálio, no Vale da Ribeira Brava, tendo vivido também em São Vicente, onde fez o ensino secundário e passado grande parte da sua juventude, na Praia, mais concretamente em Santa Cruz.

A sua trajetória é um testemunho de resiliência, desde a infância em São Nicolau, a formação com os Salesianos em São Vicente, até aos desafios académicos em Lisboa, onde a sua persistência lhe permitiu concluir a licenciatura em Economia apesar de graves entraves burocráticos. 

Com uma carreira que cruza o sector público e privado, desempenhou funções de alta responsabilidade política e governativa, mantendo sempre como norte, conforme alvitrou, o compromisso com a verdade e o desenvolvimento da sua nação.

Formado em economia na Universidade Técnica de Lisboa, no Instituto Superior de Economia, para além do economista e do homem de Estado, esta conversa sobre o seu percurso de vida, revela ainda o cidadão que encontra na escrita de romances e na gestão empresarial no ramo do turismo, formas contínuas de servir a sua comunidade.

Assim, longe dos holofotes da política activa, o "Tuta" para os mais próximos, revela uma rotina movida pela curiosidade intelectual e pelo amor às raízes, e aos 75 anos, permanece um eterno aprendiz, fundindo a sabedoria da experiência com uma jovialidade de espírito que define a sua visão para o futuro de Cabo Verde.

Diz que sempre procurou viver de forma discreta, embora tivesse que se sujeitar ao mediatismo de ser membro do Governo e de outras responsabilidades políticas, mas essa não é a sua vocação, contextos que determinaram isso.

“Circunstancialmente dediquei-me à política mais activa, mas prefiro viver como estou a viver… Uma vida familiar boa e relações sociais normais. Sou mais da família, da minha casa, mas também gosto da vida social e cultural”, concretizou.

O antigo governante que trocou convites de prestígio internacional pelo Vale da Ribeira Brava, recorda a infância feliz em São Nicolau, os sacrifícios para tirar a família da pobreza, a paixão pelas mazurcas, por isso, se encontrar um homem a dançar valsa ou mazurca de madrugada numa rabecada em São Nicolau, poderá estar perante um dos economistas mais influentes de Cabo Verde.

Quem vê hoje este homem de tez clara, elegante e de baixa estatura, aos 75 anos, a cruzar a Fajã para se juntar a uma festa tradicional, descobre uma pessoa que nunca deixou que a gravidade dos cargos de Estado abafasse a alegria da valsa ou o amor pela morna.

“Danço a valsa, danço a mazurca e gosto. Quando num baile destes há uma mazurca, eu ando atrás de uma dama porque tenho de dançar”, conta entre risos.

Gualberto do Rosário, que actualmente divide os seus dias entre a escrita de romances, a gestão turística e a paixão pelas mazurcas de São Nicolau, cresceu entre a agricultura satisfatória da família materna e a tradição da classe média do pai, mas viu a pobreza imperar com as secas dos anos 60 e 70.

O percurso deste homem, que desde os 27 anos dorme pouco, apenas três a quatro horas por noite, estuda muito e não abdica de ser um eterno aprendiz, é marcado pela resiliência, pois, antes de se tornar um economista de renome, Gualberto foi professor da segunda classe e secretário municipal para ajudar a família a vencer a escassez.

Da infância com os Salesianos ao topo da governação o menino de Tálio que conquistou o mundo conta que a política foi uma circunstância, uma missão, mas a verdade é uma vocação inegociável, admitindo, porém, que na política poderá ter pecado por omissões… agora, nunca faltou a verdade.

“Estive na política. Muita gente acha que a política é um espaço para mentiras e isso desagrada-me imensamente. Eu não tive necessidade de fazer isso. A mentira tira-me do sério. Tenho muita dificuldade em conviver com a mentira”, expressou.

Agora, com o coração em São Nicolau e o olhar no Sal, Gualberto vive uma “residência dividida” para poder acompanhar de perto o crescimento dos seus filhos mais novos, na ilha turística, mas entre o Sal e São Nicolau, continua a compor a sua história, um compasso de cada vez, com o espírito sempre jovem e o coração ancorado nas raízes.

Madrugador nato, neste momento aposentado, mas com uma vida muito preenchida, continua a trabalhar, porque considera que uma pessoa reformada não deve ficar parada, e usa as primeiras horas do dia para estudar ciência, a actualizar-se sobre o mundo, antes de mergulhar na sua actividade empresarial no ramo do turismo.

“Dá-me prazer imenso trabalhar. Faço coisas que foram sempre sonhos da vida e que nunca pude fazer por dificuldades várias, como por exemplo, dedicar-me à escrita. Sou conferencista, convidam-me para muitas conferências e palestras, em Cabo Verde e outros países do mundo, Moçambique, São Tomé, Alemanha, Estados Unidos da América, Brasil, em Portugal, por aí fora”, manifestou o antigo governante que já tem quatro romances publicados.

Mas Gualberto tem outras aptidões, é uma pessoa com formação musical, aprendeu música, experimentou vários instrumentos e foi membro de uma banda clássica.

Além disso, sabe também cozinhar, gosta da cozinha, faz muita coisa tradicional, também pratos não tradicionais, é um mestre no “molho de São Nicolau”, prato típico e emblemático da gastronomia da ilha, que Gualberto considera essencial à mesa, e garante que faz também um “arroz à baiana” inesquecível, caldeirada de peixe, “friginote”, frango, salada e outras paparocas… além do mais, quando está na cozinha lava a louça e deixa tudo limpinho e arrumado.

O homem que recusou propostas de bancos mundiais e universidades francesas porque o seu projecto de vida, desenhado aos 23 anos, era contribuir para Cabo Verde, viu o Cabo Verde "fatalista" dos anos 50 transformar-se num país de paz e harmonia, ao olhar para o futuro, mantém o optimismo, pois, segundo ele, a caminhada continua, sem prazos, mas com a certeza do sucesso da nação.

Não procurou trabalhar na sua vida para deixar legado, mas fazer coisas para a sua comunidade, não apenas o Tálio ou a Vila da Ribeira Brava, conforme explicou, falando de Cabo Verde no seu todo.

Entretanto, se pudesse escolher o seu legado, Gualberto não falaria apenas de política, falaria também de literatura, tendo ainda um projecto para escrever sobre os caminhos de desenvolvimento feitos e a projecção do futuro do país.

“Eu quero fazer isso. Aquilo que nós podemos projectar como futuro é um país onde se poderá viver tranquilamente, com certeza, em paz, em harmonia e com condições de vida muito boas. Mas quando é que vai acontecer, não sabemos. É uma caminhada, um desafio que temos de vencer e vamos vencer seguramente. Sem prazos, sem data”, concluiu.

SC/CP

Inforpress/Fim

Partilhar