
Cidade da Praia, 26 Ago (Inforpress) – A escritora e académica cabo-verdiana Mana Guta defende maior valorização da oralidade e da herança africana na literatura nacional, considerando que persistem vozes e memórias que ainda não encontram espaço suficiente na produção literária.
A relação de Mana Guta com a literatura começou muito antes da publicação dos primeiros livros e está ligada às memórias da infância em São Miguel, às histórias contadas ao luar, aos rituais de iniciação e aos ensinamentos recebidos dos mais velhos.
Entre as figuras que considera decisivas na formação da mulher e da escritora estão as avós, a bisavó paterna e outras mulheres da família, que, segundo a própria, contribuíram para preservar uma memória transmitida ao longo de gerações.
Recorda também um avô que, depois de ficar fisicamente incapacitado e cego, deixou de poder ir ao mar e passou a fazer redes de pesca.
Enquanto trabalhava, transmitia às crianças valores e conhecimentos recebidos dos seus antepassados. Na fase que considera mais sábia da sua vida, passou a autodenominar-se Pedro Burro e chegou a ser procurado por padres que lhe pediam conselhos e orações.
Foi desse contacto com homens e mulheres que não sabiam ler nem escrever, mas dominavam uma vasta riqueza de conhecimentos, que Mana Guta diz ter recebido aquilo a que chama uma “fortuna oral”, constituída por contos, provérbios, indis, adivinhas, superstições e protocolos associados aos rituais de passagem e aos ciclos da vida.
Para a escritora, essa herança constitui um dos pilares da identidade cabo-verdiana e deve ocupar um lugar mais relevante na literatura.
Defende, por isso, que algumas das vozes ainda ausentes da literatura nacional são precisamente aquelas capazes de transmitir de forma mais directa a herança africana.
“Imagine quão rica e potente seria a nossa literatura se às nossas avós fosse também permitido frequentar escolas”, observa.
Mana Guta considera que a literatura cabo-verdiana contemporânea apresenta grande diversidade geográfica e uma produção significativa, mas entende que a historiografia e o cânone literário ainda não acompanham essas mudanças ao mesmo ritmo.
Segundo a escritora, em eventos internacionais fica, por vezes, com a impressão de que leitores estrangeiros estão mais actualizados sobre a produção da nova geração cabo-verdiana e sobre a escrita de mulheres.
A questão linguística ocupa igualmente um lugar central na sua reflexão sobre literatura e identidade.
Mana Guta considera “organicamente saudável” a relação entre o português e a língua cabo-verdiana na produção literária.
O português, explica, permite ao escritor construir um repertório de conhecimento, criatividade e cultura geral, enquanto a língua cabo-verdiana oferece acesso à memória afectiva e à herança cultural.
A académica entende, contudo, que a actual política linguística não favorece suficientemente o desenvolvimento cultural e defende o estímulo à produção artística, à investigação e à divulgação cultural, bem como políticas públicas mais robustas que permitam a profissionalização dos artistas.
A identidade cultural, acrescenta, tornou-se transversal a diferentes áreas da sociedade, dando como exemplo o futebol, que considera também uma janela de visibilidade e de “retroalimentação” da identidade cabo-verdiana.
Quanto à globalização, recusa uma leitura absoluta, defendendo que tudo depende da forma como cada cabo-verdiano se posiciona e da capacidade de seleccionar aquilo que consome e reproduz.
A escritora entende igualmente que a literatura pode assumir uma dimensão política e contribuir para mudanças sociais.
A influência mais profunda sobre a sua própria criação, sustenta, não veio necessariamente dos autores que leu, mas sobretudo das pessoas que lhe transmitiram conhecimentos e histórias através da oralidade.
“São eles que falam através de mim”, afirma.
Para Mana Guta, preservar essa memória significa garantir que as novas gerações tenham acesso a uma herança cultural que, embora nem sempre tenha sido registada nos livros, permanece viva nas histórias, nos valores e nos conhecimentos transmitidos de geração em geração.
É também nessa perspectiva que encara o seu próprio percurso enquanto escritora e académica: preservar uma herança de dignidade e memória recebida dos que a antecederam e contribuir para a sua transmissão às novas gerações.
JMV/CP
Inforpress/Fim
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