
*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***
Cidade da Praia, 10 Set (Inforpress) – A falta de habilitação literária continua a limitar a autonomia de muitas pessoas que constroem o seu sustento através do trabalho físico e informal, numa altura em que a sociedade avança a passos largos rumo à digitalização.
Assinalado a 08 de Setembro, o Dia Mundial da Alfabetização coloca anualmente em foco a educação como a pedra angular do desenvolvimento e um direito humano fundamental, consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.
No rasto da efeméride, a Inforpress foi ao encontro de quem vive o dia-a-dia à margem das letras, num retrato em que o acesso ao ensino básico de qualidade ainda esbarra em desigualdades sociais, disparidades de género e tabus culturais.
Criada em 1967 pela Unesco, a data reforça a importância da leitura e da escrita para o progresso económico e social.
Contudo, longe dos discursos oficiais, a falta de alfabetização traduz-se em limitações diárias e na perda de autonomia em tarefas simples, como interpretar contratos ou aceder a direitos básicos.
Com a aceleração da transição tecnológica, o problema ganhou uma nova dimensão, à medida que a iliteracia tradicional se converteu também em exclusão digital.
Numa sociedade onde pagamentos, serviços públicos e comunicação dependem cada vez mais de ecrãs, aplicações e mensagens de texto, a incapacidade de ler transforma simples operações do quotidiano num obstáculo intransponível, aprofundando o fosso da desigualdade.
Em pleno século XXI, encontrar em Cabo Verde trabalhadores que enfrentam a perda diária de autonomia por não saberem ler nem escrever evidencia que, entre velhas barreiras sociais e novas exigências tecnológicas, a alfabetização se reafirma como a ferramenta indispensável para o exercício da cidadania e a promoção da dignidade humana.
Para quem ganha a vida a erguer paredes, a cultivar a terra ou a cuidar do lar, a incapacidade de ler e escrever é muito mais do que um obstáculo profissional, revelando-se uma barreira invisível que limita a autonomia a cada gesto do quotidiano.
No sector da construção civil e no meio rural, onde a força de trabalho física predomina, a ausência de habilitação literária é muitas vezes uma herança de infâncias marcadas pela necessidade precoce de sustento familiar.
António Semedo, de 54 anos, pedreiro de profissão, conta que a necessidade de ajudar a família o afastou dos cadernos logo em criança.
“Na obra, consigo medir tudo de cabeça e fazer o trabalho com perfeição, mas quando me entregam uma planta com instruções escritas ou preciso de assinar um contrato de empreitada, fico completamente dependente dos outros. Sinto sempre uma vergonha que não passa”, desabafa.
A mesma realidade é partilhada por senhor Né de Pina, de 61 anos, agricultor, que aponta a falta de escolaridade como uma barreira para fazer prosperar o seu negócio.
“Para comprar sementes ou fertilizantes e perceber as doses nos rótulos, tenho de pedir a alguém que leia por mim. A terra ensinou-me tudo o que sei, mas sinto que sem a leitura continuo prisioneiro da boa vontade alheia”, relata revelando alguma angústia.
Por outro lado, as desigualdades estruturais de género deixaram marcas profundas no trabalho doméstico, afectando mulheres que viram o acesso à escola preterido em favor dos cuidados com o lar desde tenra idade.
É o caso de Maria Graciete ou Teti, de 48 anos, empregada doméstica, que descreve a dependência diária nos transportes e serviços como um dos maiores fardos.
“Ver os autocarros passar sem saber o letreiro ou ir ao banco e ter de pedir a estranhos para me ajudarem no caixa automático traz uma grande insegurança. Quantas vezes não apanhei autocarro contrário. Em vez de ir a Ponta de Água fui parar à Achada Grande”, conta, entre gargalhadas.
“Com os telemóveis de hoje ficou ainda mais difícil. O meu sonho sempre foi aprender a ler para conseguir acompanhar os meus filhos, mas a vida não me deu esse tempo. Gostaria de um dia aprender a ler e a escrever…”, confessa, comentando que, enquanto esse dia não chega, vai queimando o rosto na panela da casa da patroa com quem trabalha há 10 anos.
Especialistas e organismos internacionais lembram que a alfabetização ultrapassa a simples descodificação de palavras, afirmando-se como uma ferramenta indispensável para o exercício da cidadania, a quebra de ciclos de pobreza e a promoção da dignidade humana na era da informação.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e relatórios de acompanhamento da UNESCO, a taxa de alfabetização da população adulta em Cabo Verde situa-se actualmente próxima dos 89%.
Contudo, os dados indicam que a percentagem de população sem instrução formal incide com maior expressão no meio rural e nas faixas etárias mais avançadas, onde a desigualdade de oportunidades no passado ainda condiciona o presente.
A efeméride deixa, assim, o mote para uma reflexão contínua sobre a urgência de reforçar programas de educação de adultos e combater o preconceito social que ainda envolve quem não teve a oportunidade de aprender a ler e a escrever.
SC/CP
Inforpress/Fim
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