
Cidade da Praia, 14 Jun (Inforpress) – O músico cabo-verdiano João Cirilo Monteiro, “Po d’Terra”, defendeu a importância da “gaita” na preservação do funaná e da identidade cultural, apelando à fidelidade às raízes tradicionais e à interpretação com autenticidade.
Em entrevista à Inforpress, o artista sublinhou que a sua ligação ao instrumento nasceu de forma autodidacta, inspirada por defensores da música tradicional cabo-verdiana, sem formação formal, tendo o seu percurso sido guiado pela dedicação e pelo apego às raízes culturais.
Para o músico, a “gaita” (acordeão utilizado na ilha de Santiago, especialmente no funaná) assume um papel “sentimental” no funaná, sobretudo quando associada ao ferrinho, constituindo a base do género na sua forma tradicional. Defende que a interpretação deve ser feita com emoção e respeito pela tradição, de forma a preservar a ligação ao público.
Questionado sobre a evolução do instrumento, considerou tratar-se de um processo essencialmente emocional, que ganha valor quando executado com autenticidade, ainda que reconheça transformações introduzidas ao longo do tempo.
O artista apontou diferenças entre gerações de tocadores, referindo que os mais antigos preservavam o “funaná verdadeiro”, enquanto os mais novos incorporam outras influências musicais.
A electrificação do género, acrescentou, trouxe maior intensidade sonora, mas também alterações que, em alguns casos, se afastam da essência tradicional.
Natural de Poilão de Engenho, no concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, João Cirilo Monteiro nasceu a 12 de Setembro de 1954 e construiu uma carreira de várias décadas dedicada à divulgação do funaná e de outros géneros musicais cabo-verdianos, no país e na diáspora.
O músico manifestou ainda preocupação com a falta de reconhecimento de intérpretes da música tradicional, apontando situações de alegada discriminação na selecção de artistas para festivais e eventos culturais.
Segundo afirmou, há casos de repetição dos mesmos nomes em eventos municipais, o que, no seu entender, contribui para a desvalorização de outros músicos ligados à tradição.
“Às vezes sofremos em silêncio, porque somos todos herdeiros da mesma cultura e merecemos o mesmo tratamento”, declarou, acrescentando que “quando uma porta se fecha, há sempre outras abertas”.
O artista defendeu também um maior compromisso das novas gerações na preservação do funaná, sublinhando que a continuidade do género depende da valorização das raízes culturais cabo-verdianas.
A ligação à música começou na infância, entre Arribada e Poilão de Engenho, influenciada pelos tios acordeonistas que interpretavam temas tradicionais do funaná.
Em 1972 emigrou para Portugal, onde aprofundou o contacto com a música enquanto conciliava o trabalho na construção civil com a formação musical, tendo integrado vários grupos.
Posteriormente, nos Estados Unidos da América, a partir de 1982, iniciou uma nova etapa da carreira, desenvolvendo projectos a solo e participando em festivais internacionais, além de ter exercido funções como educador de Artes ao abrigo da AmeriCorps, leccionando música a crianças.
Ao longo da carreira editou vários trabalhos discográficos, entre os quais “Iluson des Mundo” (1979), “Po d’Terra Raízes” (1982), “Caminho Longi” (1985), “Mensagem Pilan Katuta” (1988), “Cabo Verde Nha Inspirason” (1990), “Lembrança e Recordação” (1994), “Aroma” (1996), “Kancera di Spera” (2000), “Pilon Batuku” (2009) e “Alma Boa” (2023).
Trabalhou com figuras de referência da música cabo-verdiana, entre as quais Paulino Vieira e membros da Voz de Cabo Verde, colaborações que considera determinantes para o seu percurso.
Foi distinguido com vários prémios internacionais e homenagens institucionais em Cabo Verde, nomeadamente, pelas câmaras municipais de Santa Catarina e São Miguel, pelo contributo para a preservação da cultura nacional.
Actualmente residente em Cabo Verde, o músico continua ligado à promoção da música tradicional e à defesa do funaná, deixando um apelo às novas gerações para preservarem as raízes culturais e assumirem um papel activo na sua valorização.
Recorda ainda actuações em festivais nos Estados Unidos, com destaque para apresentações em San Antonio, Texas, em 2002 e 2012, que considera marcantes na sua carreira.
JMV/HF
Inforpress/Fim
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