
Joanesburgo, África do Sul, 14 Jun (Inforpress) - A activista Cassandra Dorasamy considera que, quando se assinala o 50.º aniversário do massacre de estudantes no Soweto, na África do Sul, que as causas pelas quais os jovens lutaram em 1976 permanecem relevantes hoje, particularmente a educação.
"Quando pensamos no facto de já terem passado 50 anos desde o massacre do Soweto, temos de refletir e perguntar-nos: o que mudou?", começou por contextualizar, em entrevista à Lusa, a activista da Amnistia Internacional na África do Sul, um dos países com maior taxa de desemprego jovem do mundo e onde o acesso à educação é um desafio e maior para a comunidade negra.
"É claro que a África do Sul é agora uma democracia. O Governo do 'apartheid' foi desmantelado. Tem havido esforços para melhorar o acesso à educação e há muito mais pessoas com acesso à mesma e as nossas taxas são bastante boas, mas, no que toca à qualidade do ensino, ainda enfrentamos muitos desafios, sendo um deles, naturalmente, a infraestrutura escolar", refletiu a especialista em direitos humanos.
Concretamente, apontou, muitas escolas, particularmente as que servem as comunidades negras, ainda não estão ao nível do padrão necessário para garantir que uma aprendizagem de qualidade aconteça.
Outras questões mencionadas foram o acesso aos estabelecimentos de ensino e como a pobreza impacta a aprendizagem.
"Também temos problemas de acesso relacionados com o facto de as escolas serem longe para os alunos, fazendo com que estes tenham de caminhar longas distâncias para lá chegar, por vezes sob condições meteorológicas difíceis. Há também problemas de nutrição e de crianças que não têm comida suficiente no organismo quando vão para a escola, o que afeta os resultados da aprendizagem", referiu.
De uma forma geral, considerou que "há muitos desafios que a juventude sul-africana ainda enfrenta, especialmente no sistema educativo, mas também fora dele", num país que tem das mais elevadas taxas de desemprego jovem do mundo.
Assim, a ativista frisou que "as causas pelas quais os jovens lutaram em 1976 continuam relevantes hoje", e a efeméride continua a ser importante na luta pelos direitos humanos dos sul-africanos.
Questionada sobre se a qualidade da educação tem impacto no ingresso no mercado de trabalho, respondeu: "Tem de facto um impacto nas capacidades das pessoas no mercado de trabalho e, quando olhamos para a nossa taxa de desemprego, percebemos que as pessoas que se licenciam com cursos universitários têm maior probabilidade de estar empregadas do que as que não o fazem".
Sobre se essa realidade afeta mais a comunidade negra no país, recordou um relatório feito pela Amnistia Internacional, entre 2020 e 2021, que concluiu que "as escolas em comunidades negras, ou comunidades historicamente negras, continuam a ser subdimensionadas e a enfrentar muitos dos desafios relacionados com infraestruturas e educação de qualidade".
"Existe um padrão racial nisto, onde a população negra continua a ser mais afetada por estas desigualdades do que a população branca", prosseguiu.
O Governo, reconheceu, tem tido iniciativas para tentar resolver esses problemas, "mas o desafio tem estado na implementação dos programas".
O massacre do Soweto, ocorrido neste bairro de Joanesburgo em 16 de junho de 1976, teve origem na marcha que um grupo de alunos negros do bairro promoveu contra o sistema de ensino do 'apartheid', que visava impor o idioma africaner nas escolas.
Pelo menos 23 crianças foram mortas pela polícia, o que levantou um coro de protestos no mundo, que viria a intensificar as sanções contra o regime minoritário branco.
Hector Pieterson, uma criança de 12 anos morta nos braços de uma colega que fugia da carga policial, tornar-se-ia a face do massacre numa fotografia publicada um pouco por todo o mundo no dia seguinte à tragédia.
A marcha deu origem a um movimento contra o regime do 'apartheid' no país que matou pelo menos 500 pessoas no ano seguinte.
O dia tornou-se feriado nacional nesta nação, vizinha de Moçambique, e assinala a juventude e a sua contribuição para a libertação do país do regime do 'apartheid'.
Inforpress/Lusa
Fim
Partilhar