REPORTAGEM/Transição Digital: Falta de acessibilidade ameaça autonomia de pessoas com deficiência visual

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REPORTAGEM/Transição Digital: Falta de acessibilidade ameaça autonomia de pessoas com deficiência visual
17/07/26 - 11:33 am

*** Por Paula Cavaco, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 13 Jul (Inforpress) - A digitalização total dos serviços financeiros no país pode constituir-se numa ferramenta de exclusão, alertam membros da Adevic para quem a dependência exclusiva de ecrãs digitais cria barreiras para cidadãos com baixa visão e cegueira.

Face a esta constatação, os membros da Associcação de Deficientes Visuais de Cabo Verde (Adevic) exigem a implementação prática da lei de inclusão através de soluções analógicas, tácteis e sonoras que garantam a independência do grupo.

Em declarações à Inforpress, Emilson Cardoso, licenciado em Relações Públicas e oficial ajudante no Cartório Nacional, na cidade da Praia, afirmou que a evolução tecnológica acelerada e a transição para plataformas 100% digitais podem gerar “grandes desafios de acessibilidade”.

“Sem interfaces adaptadas, nós os utilizadores somos forçados a partilhar dados sensíveis com terceiros. A ausência de botões físicos ou feedback tátil obriga-nos a pedir ajuda constante a familiares ou estranho”, disse, sublinhando que barreiras digitais impedem o acesso a serviços básicos no dia-a-dia, no trabalho e na rua.

Elmison Cardoso que não é contra mudança defende que o avanço tecnológico deve acontecer em simultâneo com a manutenção de canais acessíveis, alegando que a perspectiva de pessoas com baixa visão não é travar a evolução, mas garantir alternativas paralelas.

Para o oficial ajudante do Cartório Nacional, a emissão de sinais sonoros e leitura de texto automáticas é a melhor forma para guiar o utilizador com problemas de visão.

Defendeu igualmente uma atenção especializada com o desenvolvimento técnico focado no design universal pelas entidades e equipas de programação, visando respeitar a legislação, defendendo que a tecnologia deve servir para incluir todos os cidadãos de forma igual, erradicando o perigo da dependência forçada.

Para a presidente da Associação Cabo-Verdiana de Promoção e inclusão das Mulheres com Deficiência (Apimud) e estudante universitária, Eurides Fonseca, a transição global dos botões físicos para os ecrãs táteis e sistemas digitais está a criar barreiras invisíveis e a retirar a independência de cidadãos com baixa visão e cegueira.

“Muitas vezes, fico estudando um produto, tentando entender como finalizar o pedido, até que percebo que não é possível finalizar. É uma experiência muito frustrante”, contou Eurides Fonseca.

A presidente do Apimud que expõe, na sua declaração, as dificuldades diárias em tarefas simples como levantar dinheiro, fazer compras ou pagar numa farmácia, afirmou que por receios de burlas ao revelar os seus dados e senhas a terceiros, preferiu deixar as compras ou transações financeiras iniciadas por insegurança.

“A digitalização sem critérios de inclusão também afecta o acesso à saúde e aos bens de consumo diários. Nas lojas e farmácias, os terminais de pagamento modernos apresentam falhas graves de contraste e feedback”, salientou, lembrando que os aparelhos que mudam da cor vermelha para a verde para indicar o sucesso de uma operação são inúteis para quem tem baixa visão.

Questionada sobre o que entende da acessibilidade digital, Eurides Fonseca expressou antes de tudo o desejo de uma experiência impecável ao interagir com conteúdos online. 

“Mas gostaria que não houvesse barreiras em poder visualizar e interagir com os conteúdos utilizando a tecnologia de leitura de tela ou o dispositivo de acessibilidade de minha preferência”, frisou.

Afirma ainda que a verdadeira acessibilidade digital se traduz na capacidade de qualquer pessoa, independentemente da sua condição, utilizar ferramentas tecnológicas com autonomia e segurança no seu quotidiano ou percurso académico.

“O caminho para a mudança deve começar na base do sistema, pelo que é urgente garantir a formação contínua em tecnologias assistidas, desde o ensino básico até à universidade”, realçou.

Acrescentou que só através de docentes qualificados e ferramentas tecnológicas adequadas será possível derrubar as barreiras que ainda limitam as pessoas com deficiência visual.

Para o presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Cabo Verde (Advic), Marciano Monteiro, a principal reivindicação é a inclusão de comandos e retornos de voz nas maquinas de cartão de crédito e débito, tanto nos modelos analógicos quanto nos digitais.

O Banco de Cabo Verde, contactado pela Inforpress, reconheceu que a digitalização dos serviços financeiros deve ser acompanhada por medidas que assegurem a inclusão e a igualdade de acesso de todos os consumidores.

“Contudo, atualmente, não existe, no âmbito do sistema financeiro nacional, um normativo específico dedicado à acessibilidade digital dos serviços financeiros para pessoas com deficiência visual”, referiu a mesma fonte.

Afirmou, por outro lado, que nos progressos registados por algumas instituições financeiras na melhoria dos seus canais de atendimento e de acesso aos serviços, persistem desafios, sobretudo no que respeita à disponibilização e adaptação da informação financeira em formatos acessíveis, que permitam uma compreensão adequada dos produtos e serviços financeiros e assegurem uma tomada de decisão autónoma, consciente e informada por parte destes consumidores.

“O Banco de Cabo Verde considera que a promoção da inclusão financeira digital deve continuar a ser desenvolvida numa perspetiva de acessibilidade universal, garantindo que a inovação tecnológica constitui um instrumento de autonomia e não uma barreira adicional ao acesso aos serviços financeiros”, lê-se na nota exclusiva à Inforpress.

Porém, embora Cabo Verde disponha de legislação voltada para a inclusão, as pessoas com baixa visão ou cegueira apontam uma falha grave na sua aplicação pelas lideranças e direções institucionais.

Face a esse incumprimento, a sociedade civil, incluindo organizações como a Federação Cabo-verdiana de Associações de Pessoas com Deficiência (Fecad), a Associação dos Deficientes Visuais de Cabo Verde (Advic) e parceiros, mantém-se firme na partilha diária de experiências e na reivindicação dos seus direitos junto do sector técnico e político.

Em Cabo Verde, a deficiência visual ou baixa visão, afecta 8,3% da população total, representando a deficiência com maior prevalência no país, acima da mobilidade e de limitações cognitivas.

PC/AA

Inforpress/Fim

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