
*** Por José Maria Varela, da Inforpress ***
Cidade da Praia, 20 Jun (Inforpress) - O engenheiro agrónomo Miguel Montrond alertou hoje para um processo de despovoamento das zonas rurais em Cabo Verde, associado ao abandono da actividade agrícola, à emigração e à degradação das condições de vida no meio rural.
Em entrevista à Inforpress, após ter percorrido nos últimos três meses mais de 80% das principais ilhas agrícolas do país - nomeadamente Santiago, Santo Antão e Fogo - o especialista descreve um cenário marcado por comunidades envelhecidas, casas abandonadas e perda de capacidade produtiva.
“A realidade no terreno é muito diferente da que normalmente é retratada na comunicação social. O mundo rural geme, sofre e enfrenta enormes dificuldades para garantir o sustento de quem nele vive”, afirma.
Segundo Miguel Montrond, factores ambientais, sobretudo a redução das chuvas nos últimos anos, agravaram a situação, com impacto directo na agricultura de sequeiro, ainda dominante em várias regiões.
Em muitas localidades, refere, observa-se o abandono de terras agrícolas, a redução da pecuária e o enfraquecimento da capacidade de resposta das comunidades às necessidades de abastecimento das cidades.
“Encontramos comunidades praticamente vazias, sem a vida que outrora possuíam, sem a sua morabeza e sem capacidade de responder às necessidades das cidades através do fornecimento de produtos agropecuários”, sublinha.
O agrónomo indica que os sinais mais evidentes de despovoamento começaram a tornar-se claros em 2025, durante visitas a várias localidades de Santo Antão, como Fontainhas, Corvo, Corda, Ribeira da Torre e Pico da Cruz.
No Fogo, acrescenta, várias localidades apresentam habitações de qualidade, mas vazias devido à emigração, entre as quais Achada Grande, Pai António, Cutelo Alto, Campanas, Monte Largo e Monte Grande.
Em Santiago, o fenómeno é particularmente “preocupante” no interior, onde, segundo refere, algumas comunidades terão perdido mais de 80% da população jovem.
Entre as zonas que mais o impressionaram, destaca localidades como Garçote, Mato Brasil, Lagoa e Achada Lagoa, onde muitas casas permanecem fechadas por emigração dos proprietários.
O fenómeno, acrescenta, não se limita ao meio rural, afectando também centros urbanos como Praia, Mindelo, São Filipe, Assomada, Santa Maria e Pedra Badejo, ainda que com maior intensidade nos municípios mais pobres.
Miguel Montrond sublinha que o despovoamento teve impacto directo na agricultura e na pecuária, com redução da mão-de-obra, abandono de terrenos e aumento de espécies invasoras, como acácias e mimosas (Leucaena).
Também a pecuária regista um “declínio significativo”, devido à falta de pessoas disponíveis para cuidar dos animais.
As alterações climáticas e a irregularidade das chuvas agravam a situação, sobretudo nas comunidades dependentes da agricultura de sequeiro. Ainda assim, o engenheiro agrónomo alerta que o problema vai além da questão hídrica.
“Existem localidades com barragens cheias de água, mas sem jovens. Isso demonstra que o problema não se resume apenas à disponibilidade de recursos hídricos”, observa.
A emigração surge como principal resposta das famílias à falta de oportunidades, sendo motivada não apenas por razões económicas, mas também pelo acesso a melhores serviços de saúde, educação, transportes e justiça.
Para o especialista, a ausência de emprego e de condições de vida dignas no meio rural continua a ser o principal factor do êxodo, a par de fragilidades nos serviços públicos e da falta de infra-estruturas e espaços de lazer.
“Muitos jovens não encontram condições de trabalho nem rendimentos suficientes e procuram melhores oportunidades fora das suas comunidades”, refere.
O despovoamento rural tem, segundo Miguel Montrond, consequências directas na segurança alimentar de Cabo Verde, país fortemente dependente das importações.
“Cerca de 80% dos alimentos consumidos no país são importados, muitos deles processados ou enlatados”, alerta.
Esta dependência, acrescenta, aumenta a vulnerabilidade a choques externos e contribui para a subida dos preços dos alimentos, afectando o poder de compra das famílias.
Ao mesmo tempo, observa-se uma crescente preferência por produtos importados, mesmo quando a produção nacional apresenta, segundo diz, maior qualidade.
Para o engenheiro agrónomo, o despovoamento implica também uma perda de identidade cultural e de património imaterial.
“Ao perder população, perde-se também uma parte significativa da identidade das comunidades”, sublinha, referindo que tradições, memórias e práticas agrícolas deixam de ser transmitidas da mesma forma.
Em vários casos, acrescenta, há comunidades praticamente abandonadas, sem habitantes nem dinâmica social, apesar do seu contributo histórico para o desenvolvimento do país.
Miguel Montrond defende que políticas públicas mais eficazes podem reduzir o ritmo do êxodo rural, embora admita que não será possível travá-lo totalmente.
A fixação das populações, sustenta, depende da melhoria dos serviços públicos, da criação de oportunidades económicas e da redução das desigualdades territoriais.
O especialista defende ainda o investimento em inovação agrícola, gestão da água, tecnologias de produção e incentivos aos jovens agricultores, como forma de tornar o sector mais atractivo.
As autarquias, acrescenta, devem desempenhar um papel central na dinamização das economias locais e na melhoria das condições de vida nas comunidades rurais.
Apesar do cenário descrito, Miguel Montrond mantém uma visão de longo prazo cautelosamente optimista.
“A agricultura continuará a ser uma actividade estratégica, porque dela depende a alimentação das populações. É preciso protegê-la, valorizá-la e criar condições para o seu desenvolvimento sustentável”, conclui.
JMV/ZS
Inforpress/Fim
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