
Cidade da Praia, 10 Jun (Inforpress) – A directora da Cátedra Eugénio Tavares da Uni-CV alertou para o risco de enfraquecimento do crioulo cabo-verdiano nas comunidades emigradas, sobretudo entre as novas gerações, defendendo medidas para reforçar a sua preservação.
Fátima Fernandes manifestou a sua posição, à margem do VII Encontro Cabo-verdiano de Língua Portuguesa, que decorre no Campus do Palmarejo Grande, na Praia, afirmando que a preservação da identidade e da língua cabo-verdiana entre as comunidades emigradas constitui um dos principais desafios culturais e educativos de Cabo Verde.
Defendeu, neste sentido, o reforço da língua cabo-verdiana como eixo da identidade na diáspora, alertando para o risco de enfraquecimento do uso da língua cabo-verdiana em contextos da diáspora, particularmente entre descendentes de emigrantes que já pertencem à segunda, terceira e quarta gerações.
Segundo a investigadora, a língua constitui o principal pilar da identidade cultural cabo-verdiana e a sua perda progressiva em comunidades emigradas pode criar um “hiato geracional” na ligação com o país de origem.
“Quando temos quatro gerações em que a segunda e a terceira já não falam cabo-verdiano, ou falam apenas as línguas do país de acolhimento, cria-se um corte na transmissão cultural e identitária”, alertou.
Fátima Fernandes defendeu, neste sentido, o reforço de políticas de valorização das chamadas línguas de herança, com destaque para o ensino bilíngue em comunidades emigradas, permitindo que crianças e jovens mantenham contacto com a língua dos seus pais e avós.
A académica sublinhou que este processo não deve ser visto apenas como uma questão cultural, mas também educativa e social, envolvendo escolas, comunidades locais e instituições dos países de acolhimento, sobretudo em contextos com forte presença cabo-verdiana.
A investigação em curso sobre a diáspora cabo-verdiana em Itália, desenvolvida entre a Universidade de Cabo Verde e a Universidade de Roma La Sapienza, tem reforçado estas preocupações, ao analisar o modo como as novas gerações mantêm (ou não) a ligação à língua e cultura de origem.
O estudo centra-se em comunidades estabelecidas em cidades como Roma, com origem em fluxos migratórios iniciados na década de 1950, e que hoje incluem descendentes já na terceira e quarta geração.
De acordo com a investigadora, os primeiros resultados indicam que, apesar da tendência de perda linguística, existe também um interesse crescente dos jovens em conhecer as suas origens, participar em actividades comunitárias e recuperar elementos da cultura cabo-verdiana.
Neste contexto, Fátima Fernandes defendeu que Cabo Verde deve assumir um papel mais activo na promoção da língua cabo-verdiana no exterior, através da formação de professores especializados, do apoio a iniciativas de ensino bilíngue e do desenvolvimento de projectos académicos e culturais junto das comunidades emigradas.
A académica considera ainda que o conceito de “língua de herança” deve ganhar maior centralidade nas políticas públicas, permitindo enquadrar de forma mais eficaz os desafios linguísticos enfrentados pelas comunidades cabo-verdianas espalhadas pelo mundo.
“Preservar a língua é preservar a identidade. E a identidade é aquilo que mantém viva a ligação entre as gerações e o país de origem”, afirmou.
CM/ZS
Inforpress/Fim
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