
Cidade da Praia, 27 Fev (Inforpress) – O cientista cabo-verdiano Maximiano Fernandes advertiu hoje que há provas científicas de que o parasita “Schistosoma haematobium” já completou o seu ciclo de vida em Cabo Verde, defendendo maior investigação para travar a progressão da doença.
Em entrevista à Inforpress, Maximiano Fernandes, membro do grupo de investigação Bionalítica, explicou que a circulação do parasita no país há cerca de três anos constitui prova científica de que o ciclo biológico foi cumprido em território nacional.
“Existem, sim, provas científicas que indicam que o parasita já cumpriu o ciclo, porque já faz praticamente três anos que circula aqui no país”, declarou, referindo-se ao agente causador da esquistossomose, detectado pela primeira vez em 2022 no concelho de São Miguel.
Apesar de reconhecer a persistência de casos, o investigador esclareceu que a situação ainda não pode ser classificada como endémica a nível nacional, tratando-se, para já, de um foco localizado.
Segundo indicou, já foram registados mais de 100 casos desde a identificação inicial, conforme dados anteriormente avançados pelas autoridades sanitárias da região de Santiago Norte.
O especialista, com artigos científicos publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos, advertiu que, a infecção pode evoluir para complicações graves se não for tratada atempadamente, nomeadamente cancro da bexiga, patologia associada ao Schistosoma haematobium.
No que respeita à origem da introdução do parasita em Cabo Verde, apontou a possibilidade de casos importados provenientes de países da África Ocidental onde a doença é frequente, como Senegal, Guiné-Bissau e Gâmbia.
De acordo com o investigador, pessoas infectadas poderão ter entrado em contacto com águas locais, contribuindo para a contaminação.
Questionado sobre os factores subjacentes ao surgimento da doença, destacou comportamentos de risco, sobretudo o contacto recreativo com águas potencialmente contaminadas. Crianças em idade escolar constituem o grupo mais vulnerável, por serem as que mais frequentam ribeiras e tanques.
Maximiano Fernandes admitiu igualmente a possibilidade de subnotificação, reconhecendo que poderão existir pessoas infectadas sem diagnóstico, embora considere que a população da zona afectada esteja informada sobre as medidas de prevenção.
Sobre a resposta institucional, sustentou que o principal entrave tem sido a escassez de investigação estruturada e a excessiva burocracia no financiamento de projectos científicos.
“A questão não é reagir tarde, a questão é a falta de interesse na investigação”, declarou, defendendo maior valorização dos investigadores nacionais.
Com um percurso dedicado ao diagnóstico laboratorial desde 2016, o cientista é também apontado como descobridor de novos métodos de detecção de parasitoses, entre os quais o método “Parasimax Multicolor”, técnica que permite detectar o parasita em poucos segundos, apresentando resultados superiores aos métodos convencionais.
Dirigindo-se à população, recomendou que todos os que tiveram contacto com águas da região procurem os serviços de saúde para despiste, mesmo na ausência de sintomas, alertando que a infecção pode permanecer silenciosa durante anos antes de provocar complicações.
A esquistossomose, também conhecida por bilharzíase, é uma doença parasitária que afecta maioritariamente populações com contacto frequente com água doce contaminada e continua a representar um desafio de saúde pública em vários países africanos.
KF/SR/JMV
Inforpress/Fim
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