
Melbourne, Austrália, 02 Out (Inforpress) - O artista plástico Mito Elias defende uma política continuada de internacionalização das artes cabo-verdianas, através de residências, exposições, bolsas e parcerias com instituições de outros países.
Em entrevista à Inforpress, o artista considera que as instituições públicas desempenham um papel importante na criação de oportunidades para os criadores cabo-verdianos, mas entende que a internacionalização não pode depender apenas de apoios pontuais.
Neste sentido, propõe o reforço de programas de residências, exposições, encontros e bolsas, bem como uma divulgação mais sistemática das oportunidades existentes no espaço dos PALOP e noutros contextos internacionais.
Mito Elias considera positiva a existência de mecanismos como o edital Circula, mas defende uma estratégia mais abrangente e continuada, capaz de proporcionar aos artistas condições para desenvolverem projectos fora do país e estabelecerem contactos com outros circuitos culturais.
Para o artista, também as empresas sediadas em Cabo Verde poderiam assumir uma maior responsabilidade no apoio às artes visuais e na criação de condições para a circulação dos artistas.
Mito Elias entende, contudo, que internacionalizar as artes cabo-verdianas não significa apenas criar condições para que os artistas viajem.
“Significa também transformar Cabo Verde num lugar de encontro, capaz de acolher artistas, curadores e instituições de outras geografias, como tem acontecido com experiências vividas em Porto Madeira, em 2008, ou com o Pilorinho, na Achada Grande, que se assume como um polo importante para a partilha de ideias e de expressões”, defende.
Nesta perspectiva, a condição insular do arquipélago não deve ser encarada apenas como uma limitação ou forma de isolamento, mas também como uma possibilidade de estabelecer novas ligações.
“O Atlântico pode deixar de ser apenas aquilo que nos separa e passar a ser também aquilo que nos conecta”, afirma.
A experiência da diáspora ocupa um lugar importante nesta reflexão. Mito Elias vive fora de Cabo Verde desde 1989 e está radicado em Melbourne, na Austrália, desde 2013, onde tem trabalhado como tutor de artes comunitárias com várias instituições, entre as quais a Footscray Community Arts, ArtPlay, Signal e Multicultural Arts Victoria.
Ao longo desse percurso, desenvolveu uma prática artística marcada pelo cruzamento entre diferentes linguagens e pelo contacto com outras realidades culturais.
Ao recordar o início do seu percurso, Mito Elias destaca também as dificuldades que os artistas enfrentavam em Cabo Verde para encontrar espaços onde apresentar os seus trabalhos.
Na ausência de estruturas dedicadas às artes visuais, os criadores procuravam montras de farmácias e lojas, o átrio do Palácio da Justiça e outros espaços improvisados.
Em 1984, juntamente com mais dois colegas, decidiu realizar uma exposição no coreto da praça, onde habitualmente actuava a banda municipal. A iniciativa recebeu o nome de “Corêto Visual”.
“Foi uma verdadeira pedrada no charco”, recorda.
Para o artista, a iniciativa representou uma ruptura com os modelos existentes, tanto pela ocupação de um espaço que não era destinado às artes visuais como pela ausência de ligação a instituições oficiais.
Mais de quatro décadas depois, considera que os jovens artistas têm hoje mais possibilidades de expor, maior acesso à informação e mais facilidade em obter materiais.
Mas entende que a abundância de referências e imagens também coloca novos desafios, nomeadamente o de encontrar uma voz própria.
Mito Elias continua actualmente a desenvolver projectos de carácter visual, sonoro e poético.
Em Julho, esteve na cidade da Praia, enquanto membro do FandataStudio, a trabalhar em dois projectos comunitários que envolveram cerca de 200 crianças durante três semanas.
“Foi uma experiência muito gratificante e inspiradora”, conta, admitindo a possibilidade de dar continuidade ao projecto.
O artista tem ainda em preparação trabalhos sonoros e poéticos, bem como ideias para livros, gravações áudio, vídeos e novos projectos de poesia.
Algumas dessas iniciativas, explica, têm sido adiadas por falta de recursos financeiros, melhores condições e parcerias.
Apesar dos obstáculos, afirma continuar motivado pela “ideia de um mundo melhor” e pela vontade de continuar a aperfeiçoar a sua “toada enquanto ser humano, defensor da cultura e da beleza dos gestos”.
Entre a criação artística e a experiência da diáspora, Mito Elias continua a defender uma maior circulação de artistas, ideias e projectos, entendendo o Atlântico não apenas como espaço de separação, mas também como possibilidade de ligação entre Cabo Verde e outras geografias.
JMV/CP
Inforpress/Fim
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