
Cidade da Praia, 28 Jul (Inforpress) – O ex-governante Victor Borges defendeu hoje a criação de mecanismos de formação prévia para o exercício de cargos políticos e de alta responsabilidade na administração pública, considerando que a boa governação não resulta de “geração espontânea”.
Em declarações à Inforpress, à margem de uma entrevista sobre o seu percurso pessoal e político, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e da Educação afirmou que a vontade e a determinação, por si só, não garantem o sucesso na gestão do Estado.
Fomos todos mais ou menos improvisados como governantes”, afirmou, recordando uma reflexão feita quando exercia funções governativas, para ilustrar o que considera ser uma fragilidade estrutural da vida política nacional.
Actualmente dedicado à consultoria e à formação de jovens e quadros, através de iniciativas como as do Instituto Pedro Pires para a Liderança (IPP), Victor Borges defendeu que a preparação antecipada dos futuros governantes deve assumir um lugar central no debate público.
“Ninguém vai para a estrada conduzir um carro sem passar pela escola de condução ou exercer enfermagem sem a devida preparação. Apenas para ser governante ou exercer cargos públicos de grande responsabilidade parece não haver exigência”, afirmou.
Segundo o antigo governante, a gestão pública exige preparação específica, criticando a ausência de formação orientada para a governação nos currículos das instituições de ensino superior.
Embora reconheça o surgimento de alguns estudos académicos nesta área, considerou que Cabo Verde continua longe de assumir a formação de dirigentes públicos como uma prioridade.
Victor Borges sublinhou que esta reflexão constitui uma “provocação sem endereço partidário”, baseada na sua experiência governativa e numa análise crítica do funcionamento das instituições.
“A boa governação não nasce por acaso, constrói-se antecipadamente”, sustentou, defendendo que as vulnerabilidades do país e a crescente complexidade do contexto internacional exigem dirigentes preparados antes de assumirem funções.
“Não se trata de criar elites político-administrativas, mas sim de capacitar as pessoas para que, ao chegarem ao Governo, estejam preparadas. O exercício da governação não pode ser como mudar a roda de uma bicicleta em andamento”, acrescentou.
Ao analisar a evolução do Estado desde a independência, Victor Borges admitiu que a improvisação de dirigentes teve explicação nos primeiros anos do país e na transição democrática, mas considerou que esse contexto já não se justifica.
Criticou ainda os partidos políticos por privilegiarem estratégias eleitorais e a conquista do poder em detrimento da formação dos futuros líderes.
No final, apelou à sociedade civil e às forças políticas para encararem a formação contínua dos decisores como um investimento essencial para reforçar a qualidade da governação e a credibilidade da democracia.
SC/JMV
Infolrpress/fim
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