Antropólogo Brito Semedo critica “achismo” na cultura e alerta para declínio do pensamento em Cabo Verde (c/áudio)

Inicio | Cultura
Antropólogo Brito Semedo critica “achismo” na cultura e alerta para declínio do pensamento em Cabo Verde (c/áudio)
08/06/26 - 04:57 pm

Cidade da Praia, 08 Jun (Inforpress) – O antropólogo Brito Semedo alertou hoje para um “abaixamento de nível” na cultura cabo-verdiana, motivado pela generalização do ensino sem estímulo ao pensamento crítico e pelo domínio do “achismo” nas redes sociais.

Brito Semedo fez essas considerações em entrevista à Inforpress, onde lançou duras críticas ao actual panorama cultural e intelectual do país, visando ao mesmo tempo a condução do processo de oficialização da língua cabo-verdiana.

Apesar de Cabo Verde se orgulhar historicamente de ser uma “nação de poetas e intelectuais", Brito Semedo defende que a massificação do ensino não foi acompanhada pela qualidade.

“Houve uma generalização, mas também um abaixamento de nível. As pessoas leem, mas leem textos curtos, muito do que está na Internet, nas redes sociais… Vivemos no achismo. Nós temos muitas informações e não aprendemos no liceu, e mesmo no ensino superior, a pensar para relacionar as coisas”, apontou.

“O que não passa nas redes sociais é como se não tivesse acontecido. Por isso, toda a gente corre para lá e todos têm uma opinião. Com a liberdade de expressão, veio o direito de pensar e falar, mas hoje o que há é ruído, todos opinam, todos acham, vivemos no achismo”, concretizou.

O antropólogo lamentou ainda a falta de infra-estruturas culturais básicas no país, sublinhando que a capital, cidade da Praia, não tem uma biblioteca municipal desde 1974 e que as universidades e liceus carecem de acervos ricos.

“Com um ambiente desse, é mais difícil emergir gente de escrita. Mas vai surgindo, o que anima”, reforçou, apontando também a ausência de revistas literárias e de uma associação de escritores activa.

Questionado sobre as críticas da nova geração, que acusa a sua linhagem de estar presa a uma “nostalgia da Claridade” e de não compreender movimentos urbanos como o hip-hop, Semedo desvalorizou o rótulo de “neoclaridoso”, considerando-o um elogio, e acusou os mais jovens de perseguirem uma “África mítica” por desconhecimento histórico.

“O importante em Cabo Verde não é a origem. A origem ficou lá para trás... Estar à procura sempre das raízes e de África dificulta o processo”, afirmou, acrescentando que a sua geração está, de facto, ultrapassada em relação à cultura urbana trazida pela diáspora, algo que assume “sem nenhum problema”.

No plano linguístico, o antropólogo classificou o debate entre o crioulo e o português como uma “falsa questão” alimentada por razões ideológicas.

Defensor de uma política que proteja tanto o português como o crioulo, Brito Semedo criticou a pressa na oficialização da língua cabo-verdiana sem a criação de condições prévias, apontando directamente o dedo ao Presidente da República, José Maria Neves, a quem acusou de ser um activista que quer impor prazos, apesar de não ter resolvido a questão estrutural nos 15 anos em que serviu como primeiro-ministro.

“Temos um Presidente da República que é um activista da língua e ele quer pôr prazos, mas ele foi primeiro-ministro durante 15 anos e não tratou disso, de criar as condições”, assinalou, manifestando ainda contra a actual proposta de grafia ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-verdiano), defendendo o modelo etimológico.

SC/ZS

Inforpress/Fim

Partilhar