
Mindelo, 08 Jan (Inforpress) – A União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (UCID, oposição) considerou hoje que o comunicado emitido pelo Governo sobre a situação na Venezuela reflecte um alinhamento ideológico explícito com narrativas e interesses externos à tradição diplomática cabo-verdiana.
De acordo com uma nota interna da UCID, a que a Inforpress teve acesso, o partido considerou que, ao classificar implicitamente a situação venezuelana como resultado de “regimes autoritários”, o Governo assume um juízo político condenatório, sem qualquer mandado internacional legítimo, sem respaldo em resoluções vinculativas das Nações Unidas e à margem do princípio da neutralidade soberana.
“Trata-se de uma leitura política alinhada com determinados centros de poder internacionais, e não de uma avaliação jurídica ou consensual multilateral”, escreveu o partido.
A UCID considerou, igualmente grave o facto de o Governo ter “omitido de forma deliberada”, “factores estruturais e externos amplamente documentados, nomeadamente as sanções económicas unilaterais, os bloqueios financeiros e as múltiplas formas de ingerência política estrangeira, que têm contribuído de forma decisiva para o agravamento da crise económica e social na Venezuela”.
Conforme o partido, ao silenciar esses elementos, “o comunicado constrói uma narrativa enviesada, politicamente conveniente e intelectualmente desonesta, que transfere integralmente a responsabilidade pela crise às autoridades venezuelanas”.
Para a UCID, é ainda inaceitável a referência à “construção de uma Venezuela democrática” segundo parâmetros implícitos definidos externamente, o que configura uma violação conceptual dos princípios da autodeterminação dos povos e da não ingerência nos assuntos internos dos Estados.
“A democracia não é um instrumento de pressão política nem um conceito a ser imposto de forma selectiva, conforme interesses geopolíticos conjunturais”, adiantou o partido.
A organização partidária acrescentou, ainda, que “a invocada solidariedade” com o povo venezuelano por parte do Governo “assume um carácter meramente retórico e contraditório”, uma vez que o executivo se absteve de condenar “medidas coercivas externas” que penalizam directamente a população civil.
“Tal postura revela uma solidariedade selectiva, condicionada e politicamente instrumentalizada. Em termos políticos, o comunicado representa um grave desvio da tradição histórica da política externa cabo-verdiana, caracterizada pela prudência, pela neutralidade activa e pelo respeito escrupuloso à soberania dos Estados”, acrescentou.
Para a UCID, ao alinhar-se com a agenda e os interesses dos Estados Unidos da América e dos seus aliados, o Governo abdica da autonomia estratégica do Estado cabo-verdiano e fragiliza a sua credibilidade como actor independente no sistema internacional.
CD/HF
Inforpress/Fim
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