
Lisboa, 19 Out (Inforpress) – O artesão cabo-verdiano Henrique Sanches, residente em Portugal, pondera abandonar a produção tradicional de “panu di téra” devido à concorrência de imitações mais baratas, alertando para o risco de desaparecimento deste património cultural de Cabo Verde.
Em declarações à imprensa, à margem da terceira edição do Cabo Verde Fest, encerrada na noite deste domingo, 18, na Brandoa, Amadora, Henrique Sanches, de 56 anos, afirmou que a venda de tecidos semelhantes ao “panu di téra” (pano da terra, em português) e a preços mais baixos está a comprometer a sustentabilidade dos fazedores deste tecido histórico de Cabo Verde.
“Vou deixar de produzir ‘panu di téra’, porque faço e não vendo. Os chineses pintam e vendem como ‘panu di téra’, e as próprias pessoas compram por ser mais barato e semelhante ao original”, lamentou o artesão de São Miguel (Ilha de Santiago).
O artesão, que se considera o único produtor de “panu di téra” em Portugal, explicou que começou a trabalhar com o pano da terra aos 17 anos e que, apesar de residir há oito anos em Portugal e exercer outras profissões, nomeadamente na construção civil, continua ligado ao artesanato cabo-verdiano.
O artesão micaelense alertou que a concorrência de produtos imitados ameaçam os rendimentos dos artesãos e a transmissão de conhecimentos sobre a produção de “panu di téra” aos mais jovens.
Segundo a mesma fonte, a participação em feiras, incluindo o Cabo Verde Fest, promovido nos dias 16 e 17, pela Plataforma Associação Cabo Verde e Diáspora (PLTCVD), tem permitido apenas para divulgar o “panu di téra”, e muitas vezes não vende uma única peça.
Perante tudo isso, Sanches defendeu a criação de medidas legais para proteger o “panu di téra” e valorizar os artesãos cabo-verdianos, que enfrentam custos de produção e dificuldades para competir com produtos fabricados em massa pelos chineses e vindas do Senegal.
O artesão lamentou também o facto de alguns cabo-verdianos optarem por imitações mais baratas, em detrimento dos produtos originais feitos por ele e outros artesões, para quem tal prática tem dificultado a continuidade da actividade.
Além do “panu di téra” em preto e branco, Henrique Sanches produz “panu di téra” em azul e verde, bem como bonés nas diversas versões.
“Se queremos valorizar a nossa identidade cabo-verdiana, temos de valorizar também as nossas tradições”, defendeu, alertando para a necessidade de evitar que práticas culturais como a produção de “panu di téra” desapareçam.
FM/HF
Inforpress/Fim
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