
***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 29 Mar (Inforpress) - De menina que calçava socas trazidas da Holanda à ministra que não abdica dos saltos altos, Joana Rosa revela o percurso de uma mulher que trocou o destino traçado pela vontade de ser “alicerce de si mesma”.
Por trás da postura firme que exibe no parlamento ou no Ministério da Justiça, existe uma mulher que ainda atende pelo nome de Celina, alcunha herdada de uma amiga da mãe, que quase se tornou o seu nome oficial, não fosse a resistência do pai em honrar a sua própria progenitora Joana.
É nesta dualidade, entre a tradição familiar e a afirmação individual, que se desenha o perfil de uma das figuras mais marcantes da política cabo-verdiana actual, uma mulher firme, determinante, frontal, mas humilde, conforme conta nesta narrativa, que decorreu no seu gabinete, de forma tranquila, descontraída, entre algumas gargalhadas.
Nascida em 1965, na povoação de Alcatraz, Joana Rosa Gomes Amado, (Amado é do marido) cresceu num ambiente que descreve como “abastado e humilde”, filha de um emigrante marítimo na Holanda e de uma mãe que casou aos 16 anos, tendo vivido uma infância rodeada de mimos, que eram raridades na época.
Enquanto a maioria das crianças da ilha crescia num isolamento quase total, na casa de Joana Rosa, em Alcatraz, e mais tarde na Vila do Maio, o mundo entrava pela porta da frente, a casa era um porto de modernidade, graças ao pai, um imigrante marítimo na Holanda.
“O meu pai trazia novidades da Holanda. Tínhamos gerador, televisão e discos de vinil. Decorava as músicas do Bonga e do Cabo Verde Show de fio a pavio”, recorda com nostalgia.
Esses discos de vinil, que ela guarda até hoje como relíquias de uma era de descobertas, foram a banda sonora de uma menina que, desde cedo, aprendeu a gostar de “estar bem-trajada”.
O pai, que a deixou com apenas oito dias de vida para ir trabalhar no mar, compensava a ausência com mimos: sapatos de salto, saias de pregas e tecidos finos.
Foi ali, entre as socas holandesas e os vestidos novos, que nasceu “a vaidade saudável” que a acompanha até hoje.
Mas a abundância material não sufocou o espírito rebelde, e numa época em que o destino de uma jovem de 18 anos no Maio era quase invariavelmente o casamento, Joana quis mais.
“Eu sempre fui um pouco rebelde”, confessa, referindo que essa rebeldia a levou a trocar o sonho da Medicina pelo Direito, após um encontro traumático com o sangue de acidentados na Rua do Hospital, na Praia.
Quanto à juventude, conta que foi marcada por uma vivência intensa na Igreja Católica, longe de ser apenas uma fiel de domingo, ela era uma força activa no grupo “Pedra Viva”, na Paróquia de Nossa Senhora da Luz, ali, entre ensaios de cânticos e peças de teatro, começou a ensaiar a sua voz pública.
Curiosamente, uma das peças que protagonizou foi sobre o casamento precoce, um tema profético, já que na vida real ela teria de lutar contra essa mesma pressão social.
A “rebelde com causa”, numa ilha onde se esperava que a mulher casasse mal atingisse a maioridade, Joana impôs-se.
“Havia aquela protecção exagerada, quase um isolamento. Eu fui sempre mais inquieta, um pouco rebelde”, conta.
Essa inquietude foi o motor que a tirou do Maio para estudar na Praia, e a transição para a idade adulta teve os seus percalços dramáticos.
É que, aos 14 anos, quando o pai descobriu que a filha “tinha namorado”, a reacção foi imediata: mandou-a de volta para casa como castigo, mas o castigo não dobrou a sua vontade.
Aos 20 anos, já mãe da sua primeira filha, nascida em 1985, Joana enfrentou o desafio de conciliar a maternidade com o sonho do curso superior.
Foi nessa fase que a “vocação” foi testada, o choque com a Medicina.
Pois, o desejo inicial de ser médica morreu nas ruas da Praia, ao ver o sangue e a dor dos acidentados que chegavam ao hospital, enquanto o chamado do Direito, o “bichinho das leis e da justiça” despertou através de um curso de administração pública, no CEMFA.
Desta juventude, Joana Rosa trouxe a bússola que ainda utiliza, isto é, a humildade aprendida na Igreja e a coragem de quem teve de desafiar as expectativas do pai e da sociedade para construir o seu próprio nome.
Enquanto muitos hesitavam, Joana Rosa foi movida pela pressa de quem sabia o que queria.
Quando percebeu que o curso de Direito não estaria disponível em Cabo Verde tão cedo, não olhou para trás, partiu para o Brasil, onde passou cinco anos de uma jornada intensa, longe do conforto da ilha, mas com um propósito de ferro.
“As pessoas diziam, cuidado com esse curso, mas eu respondi que cada um faz o seu propósito. Estudei, construí o meu caminho e voltei advogada”, exteriorizou.
Este período foi o divisor de águas, pois a “Celina” do Maio transformava-se definitivamente na Dra. Joana Rosa, a profissional que, ao regressar em 2000, preferiu a incerteza da advocacia privada a aceitar um cargo administrativo abaixo da sua formação.
A família Rosa era um pequeno exército de oito irmãos, quatro rapazes e quatro meninas, sendo Joana a terceira filha e a segunda das mulheres, crescido num ambiente de partilha e respeito profundo.
Hoje são sete, pois a perda de um irmão num acidente de viação deixou uma marca de saudade na estrutura familiar, mas também reforçou os laços entre os sobreviventes.
Apesar da abundância proporcionada pelo pai, o rigor era a regra, e Joana Rosa recorda-se de disputar a sua individualidade até na roupa.
“O meu pai trazia a mesma coisa para mim e para a minha irmã mais velha, e eu dizia: Não, traz-me coisas diferentes”, conta num tom firme.
O tempo passa e as coisas mudam… A menina que calçava socas trazidas da Holanda hoje é ministra, facto que, conforme disse, nunca antes lhe passara pela cabeça.
Se no Ministério a ordem é a lei, em casa, Joana Rosa encontra a sua paz através do cuidado com o lar.
“Já dispensamos a empregada para cozinhar”, revela, referindo que ela ou o marido assumem o fogão, naturalmente e com prazer.
Apesar de ter crescido a comer peixe no Maio, houve uma fase em que o evitou, hoje, o atum e o esmoregal vindos directamente da sua ilha natal são presença obrigatória na mesa, conciliando o prazer com o cuidado com a saúde.
Gosta de sentir o cheiro da comida caseira e tem um carinho especial pelos sabores da terra, como xerém, cuscuz e o totoco (a massa tradicional do Maio).
Para a ministra, que faz da decoração uma terapia, mudar uma almofada ou uma cortina é quase um acto espiritual.
“Dá uma ideia de mudança dentro de nós mesmos”, confessa, descrevendo que enfia objectos novos em casa até não haver espaço, para desespero de quem tem de limpar, mas é esse toque pessoal que transforma as paredes num refúgio.
De manhã, Joana Rosa caminha ou faz bicicleta no seu miniginásio caseiro para combater o stress, e, ao fim do dia, o que resta é a imagem de uma mulher que não se deixa deslumbrar pelos títulos, que gosta de cumprimentar as pessoas nas ruas e de sentir o abraço.
“Não sou artificial”, afirma a governante que não “entrou pela janela” na política, tendo feito esse percurso “degrau a degrau”, desde as reuniões clandestinas em casas de amigos na Terra Branca até à liderança da bancada parlamentar, num dos momentos mais críticos da história recente, a pandemia de Covid-19.
Conhecida pela sua frontalidade, algo que admite causar “algumas inimizades”, mas que Joana Rosa defende como parte da sua integridade.
“Detesto o cinismo, digo o que penso”, enfatiza.
Uma das curiosidades que mais persegue a ministra é a sua escolha de calçado em campanha.
Enquanto muitos optam por sapatilhas para percorrer as calçadas do país, Joana Rosa mantém-se fiel aos saltos e a explicação é prática e afectiva.
“Habituei-me desde criança com as socas que o meu pai trazia. Não sei andar de sapatos lisos, dou topadas. O salto é o meu estilo, é como me sinto bem”, explicou.
Quando as luzes do Ministério se apagam, a governante “despe a armadura política”, dando lugar à mulher que valoriza o silêncio no seu refúgio doméstico, partilhado com o marido, com quem casou em 2012 após anos de relacionamento.
“Em casa uso calções, bubus, chinelos… sinto-me totalmente liberta”, conta Joana Rosa, “a Celina” de Alcatraz, para quem a vida é uma construção de um edifício sólido, onde a humildade é o cimento e a autenticidade a fachada que todos reconhecem nas ruas.
SC/AA
Inforpress/Fim
Partilhar