Música: Tibau Tavares ou o artista que "transformou" a ilha do Maio em canção

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Música: Tibau Tavares ou o artista que "transformou" a ilha do Maio em canção
30/12/25 - 02:42 pm

*** Por Ricénio Lima, da Agência Inforpress ***

Porto Inglês, 30 Dez (Inforpress) – As composições de Tibau Tavares ultrapassaram o universo artístico e afirmaram-se como verdadeiros hinos da ilha do Maio, funcionando como marcas identitárias que unem gerações e reforçam o sentimento de pertença dos maienses.

Natural da Calheta do Maio, onde nasceu em 1968, José Mário Tavares Silva, de nome próprio, cresceu rodeado pelo quotidiano simples da ilha, que viria a transformar em matéria-prima das suas canções.

A relação íntima com a terra natal reflete-se numa obra fortemente ancorada nas vivências locais, nas paisagens, nas pessoas e na memória coletiva do Maio.

Canções como “Noite de Porto Inglês” e “Djarmai Azul” ganharam um estatuto singular junto da população, sendo assumidas como autênticos hinos da ilha. 

“As pessoas tomaram estas músicas como hinos”, reconheceu o artista à Inforpress, sublinhando que grande parte das suas composições são dedicadas ao Maio. 

Para Tibau, a canção “Noite de Porto Inglês” é a que melhor traduz essa ligação, por ter ficado “no coração das pessoas do Maio”.

A projeção nacional começou nos anos 2000, quando a cantora Gabriela Mendes gravou uma das composições do artista, abrindo caminho para que outros intérpretes da música cabo-verdiana, como Lura, dessem voz às suas criações.

Em 2013, Tibau lançou o seu primeiro trabalho discográfico numa parceria com o grupo alemão  Pupkulies & Rebecca feat Tibau Tavares, numa fusão entre a música electrónica alemã e cabo-verdiana, reforçando uma carreira marcada pela coerência artística e pela valorização da identidade cultural.

Com uma carreira marcada por atuações em grandes palcos internacionais, como o Africa Festival e o Fusion Festival, na Alemanha, Tibau admite sentir, por vezes, maior reconhecimento fora do país. 

“Internacionalmente sinto-me mais valorizado. Em outras ilhas até me sinto mais acarinhado do que no Maio. Afinal, santo da casa não faz milagre”, comentou, sem amargura.

Apesar do sucesso além-fronteiras e de ter um público fiel na Alemanha, o artista não abdica de Cabo Verde. Diz que o país é a sua maior fonte de inspiração. 

“Cabo Verde é o meu ponto forte, a minha inspiração, o meu tudo. É aqui que faço todas as minhas composições”, sublinhou.

Hoje, assume viver uma fase de tranquilidade criativa e  aproveita o silêncio e a calma da ilha do Maio para compor sem pressa, deixando a inspiração chegar naturalmente. 

“Já não tenho pressão para compor. Simplesmente aguardo pela inspiração”, afirmou.

Tibau Tavares critica, no entanto, o rumo da música cabo-verdiana contemporânea e defende uma maior valorização da tradição e da identidade cultural, alertando para o risco de descaracterização da música nacional face às influências estrangeiras presentes nos novos artistas. 

“A nossa música tradicional está quase a se perder. Há muitas influências estrangeiras nos novos artistas, e isso é triste, porque a nossa música pode acabar por perder a identidade”, afirmou.

Com uma carreira que considera realizada, Tibau Tavares prepara o lançamento do álbum 'Alkebulan', uma homenagem a África, com 12 faixas, previsto para Fevereiro de 2026, reafirmando a sua ligação às raízes e ao continente que continua a inspirar a sua música.

RL/AA

Inforpress/Fim 

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