Investigadora defende adaptação das tecnologias à realidade local na África subsaariana

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Investigadora defende adaptação das tecnologias à realidade local na África subsaariana
29/03/26 - 09:39 am

Lisboa, 29 Mar (Inforpress) - A investigadora Íris de Brito defendeu a adaptação das tecnologias aos contextos locais na África subsaariana para promover a inclusão digital e a participação cidadã, alertando que o progresso exige educação e infraestruturas adequadas.

A professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa disse à agência Lusa que as ferramentas tecnológicas devem visar a melhoria das condições de vida das populações.

Ao falar-se de inclusão digital e acessibilidade, estas são entendidas "como o acesso ou a disponibilização ao equipamento ou ao 'software', mas a acessibilidade tem a ver também com a forma como as tecnologias são disponibilizadas [e] como os indivíduos se relacionam com [elas]", referiu.

Sobre a Inteligência artificial, a investigadora do West Africa Digital Governance Forum defendeu que esta tecnologia pode melhorar condições de vida em África. Contudo, alertou que o acesso à tecnologia permite manipular ferramentas sem garantir desenvolvimento pessoal, sendo crucial unir a inovação à literacia digital para evitar dependências e promover autonomia humana sustentável.

Segundo a especialista, quando se fala da "transformação digital e do progresso tecnológico no contexto da África subsaariana, ou seja, no contexto dos países mais pobres", o pensamento deve ser ajustado à realidade.

"Estamos a falar de países, neste caso das zonas rurais remotas, onde a ausência de infraestruturas relacionadas com eletricidade dificultou esta propagação, esta disseminação das tecnologias. No entanto, existem algumas iniciativas tecnológicas que permitem ou contribuem para superar estes constrangimentos", disse Íris de Brito, exemplificando com o Tablet Comunitário, projeto implementado em Moçambique há cerca de 10 anos que contribui para que as "comunidades mais remotas tenham acesso à tecnologia".

"Quando falamos, por exemplo, de consultas virtuais, nós temos zonas em África onde para ter acesso a um especialista em saúde é extremamente difícil, portanto, ter acesso a uma consulta online ou ter acesso, enfim, a este tipo de serviços básicos, ter acesso a microcrédito, por exemplo, através de plataformas digitais, isso já ajuda os cidadãos a melhorarem as suas condições de vida", exemplificou a investigadora.

Segundo Íris de Brito, "todas estas iniciativas vão contribuir para o desenvolvimento dos países", embora o esforço tenha de ser feito pelos mesmos.

De acordo com o ranking do E-Government Development Index (EGDI), o Gana (108.ª), Quénia (109.ª) e Cabo Verde (111.ª) são os países que têm feito mais progresso. Em contraste, a Guiné-Bissau (170.ª), Moçambique (177.ª) e Guiné Equatorial (179.ª) são os menos desenvolvidos, o que se justifica pela situação económica, política e social de cada Estado.

Apesar dos benefícios das tecnologias, existem pessoas que são excluídas, não só em termos de acessibilidades às ferramentas digitais, bem como a todo o tipo de serviços, sendo essas pessoas mais velhas, mulheres e as que estão, em termos geográficos, nas zonas mais remotas.

Para a especialista, o papel do Estado e das instituições públicas é o de tentarem "minimizar este impacto", pois a "exclusão tende a ser cada vez maior" devido ao fosso digital inconstante.

"As ferramentas tecnológicas são importantes para a participação ativa na vida pública e na sociedade", afirmou, sublinhando que a inclusão digital constrói sociedades mais participadas.

O impacto das plataformas na participação cívica foi evidente em movimentos como o #EndSARS, na Nigéria, em 2020, e nos protestos pós-eleitoriais em Moçambique, em 2024. Nestes contextos, as redes sociais permitiram aos cidadãos denunciar abusos, desafiar instituições e dar voz à indignação popular.

Contundo, a professora alerta para a dualidade tecnológica: se estas ferramentas potenciam a liberdade de expressão, também aceleram a desinformação, especialmente onde o acesso a fontes fidedignas é escasso.

Questionada sobre se o ensino de competências digitais em África deve seguir moldes ocidentais, a professora defendeu a necessidade de adaptação aos contextos, culturas e tradições locais para que os programas produzam a mudança de comportamento pretendida.

Íris de Brito concluiu que o desenvolvimento "passa pela educação", pilar fundamental para construir sociedades, "em que decisões sejam tomadas de forma mais prudente e mais consciente, em que os cidadãos possam ter a sua voz, sentir que podem ter e exercer a sua liberdade de expressão".

Inforpress/Lusa

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