ENTREVISTA: “O verdadeiro artesão cria, inova e emprega”, diz Gustavo Duarte

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ENTREVISTA: “O verdadeiro artesão cria, inova e emprega”, diz Gustavo Duarte
17/09/26 - 07:02 pm

Cidade da Praia, 17 Set (Inforpress) – O mestre artesão e professor Gustavo Duarte, com uma trajectória de mais de quatro décadas dedicada à criação, defende uma “transformação profunda” na forma como o artesanato é encarado em Cabo Verde. 

Numa entrevista à Inforpress o criador, distinguido com o 2.º grau da medalha de Mérito pelo Governo, entregue pelas mãos do então ministro da Cultura e Indústrias Criativas, Abraão Vicente, deixa duras críticas à falta de fiscalização legal no sector, propõe novos modelos de comercialização e sublinha o papel estratégico do artesanato na economia, no turismo e na sustentabilidade ambiental.

A história de Gustavo Duarte funde-se com a evolução do próprio sector no arquipélago, estando 13 anos à frente do Centro Regional de Artesanato da Praia, período em que o mestre recorda o trabalho pioneiro desenvolvido ao lado de Luís Tolentino.

Numa época em que grassavam dúvidas sobre a sustentabilidade económica do país, a instituição encontrou formas criativas de financiamento e afirmação através da edição de selos de artesanato, que gerou vendas na ordem dos 24 mil contos até 1989.

“Isso para ver que naquela altura, qual a contribuição que o artesanato deu na economia de Cabo Verde onde ainda éramos poucos”, sublinhou

Para Gustavo Duarte, o artesanato nunca deve ser confinado a uma faixa estritamente cultural, cruzando-se a actividade transversalmente com o turismo, a educação, o ambiente e a economia.

Contudo, adverte que o crescimento quantitativo, passando dos cerca de 30 ou 40 artesãos de outrora para os milhares actuais, exige um foco intransigente na qualidade. 

“Cabo Verde é um país pequeno, se quisermos aparecer temos que ter qualidade do produto e não quantidade”, aponta.

Foi com essa premissa que criou o Centro de Designer e Artesanato Criativo, incitando à valorização da “matéria-prima matriz”, aquela que os antepassados sabiam utilizar e que abunda no território nacional, como o cariz ou o espectro de coqueiro, aplicando esta mesma filosofia além-fronteiras.

Em Angola, adaptou-se prontamente aos recursos locais. Em São Tomé e Príncipe, numa missão de 45 dias que resultou na formação de 30 jovens, surpreendeu a comunidade ao transformar materiais desvalorizados em obras de arte de excelência. 

Conta que o sucesso foi de tal ordem que venceu um concurso internacional para reestruturar uma escola de artes e ofícios numa roça santomense, transformando-a, ao longo de cinco anos, num modelo sustentável onde os alunos chegavam a auferir rendimentos superiores aos dos próprios professores.

Questionado sobre o que o artesanato representa na sua vida, Gustavo Duarte define-o como uma “terapia” e a própria essência da sua vitalidade, cuja base do percurso se resume no acrónimo CRIE: Criando, Inovando, Empregando.

No entanto, o mestre faz questão de corrigir um clichê comum no sector ao tentar desfazer-se da ideia de que se deve transformar lixo em luxo, sublinhando que “lixo não se transforma em luxo nunca. Lixo sempre é lixo”. 

Para o artesão, aquilo que se recolhe em contentores e lixeiras não é lixo, mas sim “matéria-prima”, argumentando que desqualificar a origem apelidando-a de lixo desvaloriza o engenho de quem tem a inteligência de ver potencial onde os outros vêem desperdício.

Outro conselho que deixa às novas gerações é a recusa do comodismo das peças estritamente minúsculas ou “da ponta do dedo”, inspirando-se nos grandes mestres do passado que conceberam abóbadas de igrejas para defender a ambição de criar obras de grande envergadura.

Apesar de reconhecer a existência de legislação protectora do artesanato cabo-verdiano, o mestre aponta o dedo à inércia institucional, observando que a lei existe, mas a falta de fiscalização torna-a ineficaz.

“Temos uma lei bonita... mas só foi feita, porque não é posta em prática, não há fiscalização, então não faz diferença nem efeito nenhum”, concretizou.

O resultado é um mercado fustigado pela concorrência desleal e pela importação indiscriminada de peças oriundas de países como o Senegal ou de artigos comercializados em lojas de carácter genérico que são vendidos ao público sob o falso rótulo de artesanato nacional.

Entretanto, esclarece que não condena a comercialização de produtos estrangeiros, desde que devidamente identificados com a sua verdadeira origem, repudiando veementemente a propaganda enganosa que prejudica o produtor local.

Para garantir que o artesão possa viver dignamente da sua arte todos os dias, e não apenas à boleia esporádica de feiras, o mestre lança um desafio estrutural aos governos e autarquias, no sentido de repensar a cadeia de valor.

Assim como o pescador entrega o peixe à peixeira e o agricultor confia a hortaliça às rabidantes, Gustavo Duarte defende que o artesão deve focar-se exclusivamente naquilo que sabe fazer melhor, dedicando-se a criar, produzir e fornecer. 

Por sua vez, a solução passa por incentivar os empresários a investir em lojas de referência, devidamente financiadas e localizadas, onde reine um cantinho representativo de cada ilha, funcionando como montra permanente para o verdadeiro produto cabo-verdiano.

Com uma visão holística e uma incansável capacidade de reinvenção, Gustavo Duarte continua a provar que o artesanato nacional tem alma, identidade e um enorme potencial por explorar.

SC/HF

Inforpress/Fim

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