
São Filipe, 05 Jan (Inforpress) – O agente cultural Fausto do Rosário alertou para o risco iminente de desaparecimento do Reinado, uma tradição secular, e defendeu a “adopção urgente de medidas técnicas e institucionais para resgatar e preservar” esse património imaterial.
Na véspera de mais um dia dos Reinados, 06 de Janeiro, como tem sido prática, com mais de cinco séculos e que foi institucionalizada em 1853 pelo bispo Dom Frei Patrício Xavier de Moura, Faustos do Rosário, em entrevista à Inforpress, defende algumas medidas “urgentes” e técnicas para garantir a salvaguarda desse legado histórico transmitido de geração em geração.
Segundo Fausto do Rosário, a primeira medida é identificar, através de um cadastro próprio, os poucos Reinados que ainda existem.
A segunda medida passa pela criação de um plano de emergência com o objectivo de recuperar e preservar todo o legado imaterial associado ao Reinado sob forma de ladainhas, rezas, cantos, comportamentos, percursos e até as pausas, que são elementos simbólicos que “caracterizam profundamente” essa manifestação cultural.
Além disso, defende a criação de estímulos para a transmissão intergeracional, aproveitando enquadramentos institucionais e exemplos bem-sucedidos do passado, como os casos de Zeca e Zezé de Nhá Reinalda.
“Tudo isso ainda pode ser registado e transmitido, mas a urgência existe há pelo menos 50 anos”, sublinhou Fausto do Rosário.
A mesma fonte considerou que esse trabalho poderia ter sido iniciado logo após a independência de Cabo Verde, tal como aconteceu com outras manifestações culturais, como os Canizades, que conseguiram sobreviver, em parte, graças ao seu componente lúdico e festivo.
O Reinado, mais restrito e fechado, foi abandonado pela Igreja Católica, que, segundo ele, teve um papel ambíguo “criou-o, mas, até certo ponto, também o condenou à morte”.
A terceira medida apontada pelo agente cultural consiste na criação de um plano de recolha e de sistematização para preservar todo o legado associado ao Reinado, incluindo ladainhas, rezas, cantigas, comportamentos, pausas rituais e percursos tradicionais
Para Fausto do Rosário, a recuperação do Reinado exige “um trabalho altamente técnico”, conduzido por profissionais com formação na área da Antropologia e orientado pelo Instituto do Património Cultural (IPC).
As câmaras municipais, a Igreja e o Ministério da Cultura devem oferecer apoio logístico, mas a coordenação, defende, deve caber ao IPC.
“Existe uma matriz bem definida sobre o que é o Reinado e o que ele deve fazer. Não se trata de adaptá-lo aos tempos modernos, mas de permitir que sobreviva como uma realidade paralela, que nos remete para outros tempos e para outras interpretações desse fenómeno extraordinário que é o sincretismo religioso”, explicou.
Fausto do Rosário apontou ainda nomes que, na sua visão, poderiam liderar esse processo, como o padre Ima, historiador com “profundo conhecimento da tradição”, ou investigadores reconhecidos, como o sociólogo César Almeida, que já desenvolveu “trabalhos importantes” na recuperação da memória musical, lembrando que Reinado também é música.
Segundo o mesmo, sem uma acção concreta e imediata, a tradição pode desaparecer por completo e acrescentou: “se ainda este ano falámos dos Reinados, daqui a dois anos, continuaremos a falar, e alguém começará a perguntar, o que é isso” questionou.
JR/AA
Inforpress/Fim
Partilhar