Cremilda Medina defende maior investimento e formação para preservar a morna em Cabo Verde

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Cremilda Medina defende maior investimento e formação para preservar a morna em Cabo Verde
14/04/26 - 04:20 pm

Cidade da Praia, 14 Abr (Inforpress) – A cantora Cremilda Medina considerou hoje que a morna atravessa actualmente um “bom caminho” em Cabo Verde, defendendo, contudo, maior investimento na formação e na valorização da música tradicional no país.

Em entrevista à Inforpress, a intérprete, natural de São Vicente, avaliou o estado da morna, género inscrito como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, sublinhando que a nova geração tem demonstrado cuidado na preservação do estilo.

“A morna já teve uma fase um bocadinho crítica, mas agora está num bom caminho. Temos muitos jovens, praticamente em todas as ilhas, a tocar e a interpretar a morna como ela é”, afirmou, reconhecendo que a evolução estética é natural, desde que não comprometa a essência do género. 

Uma das vozes da música tradicional cabo-verdiana, Cremilda entende que o principal desafio não está na fidelidade às raízes, mas sim na lógica de mercado que privilegia números e visualizações em detrimento da qualidade artística.

“Infelizmente, a música tradicional não dá visualizações, não dá dinheiro como outros estilos. E os artistas precisam de viver”, observou, acrescentando que esta realidade leva muitos intérpretes a procurarem outras sonoridades, numa tentativa de garantir sustentabilidade profissional.

Ainda assim, defende que a busca por novos caminhos não deve significar a desvalorização da identidade musical cabo-verdiana.

“O mais triste não é ser desvalorizada pelos outros, é ser desvalorizada pelo próprio cabo-verdiano”, frisou.

A cantora alertou também para as dificuldades enfrentadas na realização de concertos no país com bandas completas de música tradicional, apontando limitações financeiras e ausência de patrocínios como entraves recorrentes. 

Segundo disse, muitos artistas que actuam regularmente no estrangeiro encontram obstáculos para apresentar, em Cabo Verde, os mesmos projectos com qualidade técnica e instrumental equivalente.

Para garantir a continuidade e vitalidade da morna e da coladeira, Cremilda defende uma aposta estruturada na formação artística e no intercâmbio entre gerações. 

“Temos músicos da velha guarda que ainda estão vivos e seria uma boa ideia promover encontros com a nova geração, para que não caia no esquecimento essa forma de tocar”, sugeriu.

A artista realçou ainda a importância de levar a música tradicional às escolas e de criar espaços de partilha entre mestres e jovens intérpretes, preservando técnicas como o dedilhar da guitarra e o uso do bordão, elementos estruturantes da sonoridade clássica cabo-verdiana.

Questionada sobre o lançamento do seu mais recente álbum, “Lágrima”, Cremilda manifestou “alegria e orgulho” pelo trabalho desenvolvido, sublinhando a participação de nomes consagrados da música nacional. 

“É um álbum extremamente completo. Estou-me a sentir muito realizada”, afirmou, acrescentando que, para já, pretende dar tempo ao público para escutar o disco antes de anunciar novos projectos.

KA/ZS

Inforpress/Fim

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