
Cidade da Praia, 22 Abr (Inforpress) – A conectividade aérea e os custos de transporte continuam a condicionar o desempenho turístico e a sustentabilidade económica dos Pequenos Estados Insulares, como Cabo Verde, conclui um estudo de investigadores da Uni-CV.
A investigação, conduzida pelos autores Edmir Ferreira e João Paulo Madeira, foi publicada na Revista International Journal of Islands Research.
O artigo analisou 27 destinos insulares ao longo de 26 anos, cruzando dados internacionais, incluindo bases do Banco Mundial e CEPII, para avaliar o impacto da distância geográfica, fuso horário, custos de transporte e nível de desenvolvimento das infra-estruturas de conectividade no desempenho do turismo.
Em declarações à Inforpress, Edmir Ferreira sustentou que a localização geográfica mantém um peso estrutural na dinâmica do turismo, desmistificando a percepção de que, num contexto de globalização e digitalização, a distância teria deixado de influenciar os fluxos turísticos e a procura turística.
“Num mundo em que basta um clique para comprar uma passagem, a distância continua a decidir quem chega e quem fica de fora”, sublinhou o investigador, explicando que factores como o fuso horário, afastamento dos grandes mercados emissores e custos associados ao transporte aéreo funcionam como condicionantes reais ao desenvolvimento turístico.
O estudo demonstra que países com maior nível de desenvolvimento das infra-estruturas de conectividade, como os aeroportos, portos, frequência de ligações aéreas e integração regional, apresentam maior probabilidade de consolidar um turismo mais robusto.
Em contrapartida, economias insulares com custos elevados de transporte enfrentam maiores obstáculos de crescimento.
O investigador vincou ainda que, embora Cabo Verde seja frequentemente apontado como um caso de sucesso entre os Pequenos Estados Insulares, é necessário aprofundar a análise comparativa para compreender se as suas vantagens competitivas são sustentáveis a longo prazo.
Na sua perspectiva, a vantagem comparativa do arquipélago não reside, necessariamente, nas praias, mas na capacidade de criar factores competitivos diferenciadores, entre os quais o preço e a eficiência da conectividade.
Por sua vez, João Paulo Madeira, que interveio posteriormente, explicou que o trabalho resultou de uma abordagem interdisciplinar, combinando economia e ciências sociais.
"O professor Edmir trouxe as variáveis económicas, os modelos e os dados agregados por país. No meu caso, procurei estruturar, sistematizar e dar coerência analítica ao estudo”, afirmou, acrescentando que uma das principais dificuldades foi precisamente harmonizar metodologias distintas sem perder o fio condutor da investigação.
Segundo o investigador, foi necessário desagregar dados estruturados das áreas económicas para permitir uma análise mais aprofundada, correlacionando conectividade, transportes, turismo, integração regional e bem-estar e desenvolvimento.
Além deste artigo comparativo, os investigadores estão a desenvolver outros estudos centrados em Cabo Verde, nomeadamente, sobre conectividade inter-ilhas e desenvolvimento do turismo, bem como um outro trabalho dedicado ao impacto da “morabeza” e da diáspora, numa perspectiva de turismo de raízes para atrair a diáspora.
Para os autores, a produção científica nacional na área do turismo deve acompanhar o peso do sector na economia cabo-verdiana, estimado em cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB), defendendo uma base de conhecimento que sustente políticas públicas mais eficazes e coerentes.
Com este estudo, reforça-se a evidência de que, para os Pequenos Estados Insulares, a conectividade não é apenas uma “questão técnica, é uma condição estrutural de desenvolvimento”.
KA/HF
Inforpress/Fim
Partilhar