
Lisboa, 21 Fev (Inforpress) – O escritor José Luiz Tavares afirmou hoje que Cabo Verde tem falhado como nação e como agregado civilizacional no quesito da valorização e dignificação da língua materna cabo-verdiana.
O poeta cabo-verdiano, radicado em Portugal, falava em entrevista à Inforpress, a propósito do Dia Internacional da Língua Materna, assinalado anualmente a 21 de Fevereiro.
“No quesito da valorização e dignificação da língua materna cabo-verdiana, falhamos como nação e como agregado civilizacional. O problema está na cabeça das pessoas, na naturalização do supremacismo, mesmo entre aqueles que de alguma forma almejam um lugar institucionalmente mais digno para a língua cabo-verdiana”, lamentou.
Tavares realçou que, independentemente do estatuto jurídico que venha ser atribuído, a língua cabo-verdiana e a língua portuguesa nunca serão equivalentes em Cabo Verde.
“Nenhuma língua oficializada ou administrativa consegue competir com a língua natural de um povo, sobretudo uma língua com a força da língua cabo-verdiana, que é o elo que liga Cabo Verde à sua vasta diáspora”, afirmou.
No que concerne ao estatuto jurídico do crioulo, o escritor chamou a atenção para aquilo que considera ser “uma espécie de paradoxo jurídico e axiológico”.
Conforme lembrou, existe uma lei da Assembleia Nacional que determina que a língua cabo-verdiana é “fundamento de soberania nacional”, embora não seja oficial, nem sequer administrativa, ao contrário do português.
Para o autor tarrafalense, esta situação revela uma contradição, ou seja, Cabo Verde possui uma língua que é elevada à condição de fundamento material da soberania, mas, que continua a ser, na prática, “maltratada e desprezada”.
“(…) Os fundamentos materiais de soberania são povo, território, instituições políticas (Governo), e, no nosso caso, a língua cabo-verdiana. Isto equivale dizer que para a existência de Cabo Verde como estado soberano uma das condições é esta língua tão maltratada e desprezada”, enfatizou.
Relativamente à educação, o entrevistado da Inforpress defendeu que o ensino da língua cabo-verdiana desde os primeiros anos de escolaridade é “uma exigência legal e civilizacional”.
“Protelar isso é negar aos cabo-verdianos a sua humanidade plena”, conclui José Luís Tavares, que tem uma queixa na Procuradoria-Geral da República (PGR), que ditou a suspensão do manual do 10.º ano de Língua Cabo-verdiana.
O Dia Internacional da Língua Materna é celebrado anualmente a 21 de Fevereiro em todo o mundo, incentivando os Estados-membros da Unesco a reflectirem sobre a preservação e valorização das suas particularidades linguísticas e culturais.
A efeméride foi instituída em 1999 pela Unesco com o objectivo de promover a diversidade linguística, cultural e o multilinguismo a nível global.
FM/ZS
Inforpress/Fim
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