
Cidade da Praia, 25 Abr (Inforpress) – A Associação Santuário dos Macacos de Cabo Verde alertou hoje para a situação “crítica” da presença de macacos no país, marcada por maus-tratos, falta de legislação e perda de habitat, rejeitando o abate como solução.
Em declarações à Inforpress, o presidente da associação, Gricha Lepointe, afirmou que a organização, criada em 2021, surgiu para colmatar a ausência de mecanismos legais e institucionais de protecção destes animais.
Segundo o responsável, a iniciativa resultou da constatação de vários casos de maus-tratos, tanto em ambiente doméstico como em espaços públicos.
“Observámos situações de macacos mantidos em cativeiro sem condições mínimas, sem acesso a água e alimentação adequadas, além do seu uso como atracção turística, o que levanta preocupações éticas e de imagem do país”, explicou.
Gricha Lepointe denunciou ainda a caça para consumo de carne, prática que, disse, representa riscos para a saúde pública, devido à falta de controlo sanitário e enquadramento legal.
Contrariando a percepção de parte da população, o presidente da associação assegurou que o número de macacos não está a aumentar, mas sim em declínio.
“Com base em observações directas no terreno, estimamos que existam entre três mil e quatro mil macacos em Cabo Verde, mas não há dados oficiais. É fundamental que o Estado realize um estudo científico aprofundado”, defendeu.
De acordo com o responsável, a ideia de que há mais macacos resulta da sua crescente aproximação às zonas habitadas e agrícolas, motivada pela escassez de recursos naturais.
“Os animais estão a perder o seu habitat devido à expansão agrícola, à urbanização e também ao impacto das mudanças climáticas, o que os obriga a procurar alimento e água junto das comunidades”, explicou.
Esta proximidade tem contribuído para o aumento de conflitos com agricultores, sendo frequentemente apontada como justificação para o abate da espécie.
Para Gricha Lepointe, esta não é uma solução sustentável. “A resposta não pode ser apenas matar os animais; hoje são os macacos, amanhã podem ser outras espécies.”
Neste sentido, a associação propõe a implementação de uma estratégia baseada em dois eixos principais, nomeadamente a protecção e a conservação.
Explicou que a protecção passa pelo combate aos maus-tratos e pela criação de um quadro legal que assegure o bem-estar animal, enquanto a conservação envolve a gestão sustentável da população e a promoção da coexistência entre humanos e animais.
Uma das principais propostas é a criação de santuários e áreas protegidas. A associação já identificou Ribeira Grande de Santiago como um espaço com potencial para acolher um projecto-piloto, por reunir condições ecológicas, presença de macacos e potencial turístico.
Segundo explicou, o conceito de santuário difere de um espaço de cativeiro, sendo uma área aberta e protegida onde os animais podem viver em estado selvagem, com acompanhamento ecológico e científico.
Outra preocupação prende-se com a classificação dos macacos como espécie invasora. Segundo explicou, não existem estudos científicos que comprovem essa designação no contexto cabo-verdiano.
“Para classificar uma espécie como invasora, é necessário seguir protocolos internacionais e demonstrar impactos negativos claros sobre outras espécies. Até hoje, isso não foi feito em Cabo Verde”, afirmou.
O responsável acrescentou que os macacos estão presentes no arquipélago há cerca de 500 anos, o que, na sua opinião, reforça a necessidade de uma abordagem equilibrada e baseada em evidências científicas.
Apesar das propostas apresentadas, a associação enfrenta vários desafios, nomeadamente a falta de financiamento, a escassez de dados científicos e dificuldades no estabelecimento de parcerias com as autoridades públicas.
Outro obstáculo identificado é o reduzido nível de conhecimento da população sobre a fauna nacional, o que, segundo o presidente, limita o envolvimento da sociedade na protecção ambiental.
“É importante reforçar a educação ambiental, inclusive no sistema de ensino, para valorizar a fauna e a flora de Cabo Verde”, defendeu.
Por sua vez, Anilson Semedo, voluntário da associação, defendeu uma abordagem equilibrada entre a actividade humana e a preservação da fauna, sublinhando que os macacos integram o ecossistema cabo-verdiano há vários séculos.
Segundo avançou, o aumento da presença destes animais em zonas agrícolas está directamente ligado à escassez de alimentos no seu habitat natural.
“Se os macacos tiverem outras fontes de alimentação, deixam de invadir as plantações. Aproximam-se porque estão a lutar pela sobrevivência”, afirmou, indicando que a associação tem vindo a desenvolver acções de sensibilização junto das comunidades para promover uma convivência mais pacífica entre agricultores e animais.
Por outro lado, os voluntários realizam actividades de monitorização, disponibilização de água e alimentos em pontos estratégicos e observação do comportamento dos grupos, sobretudo na zona norte da Cidade Velha.
Estas acções, afirmou, visam reduzir a pressão sobre as áreas agrícolas e minimizar os conflitos.
Actualmente, a associação conta com oito membros e pretende alargar a sua base de apoio, incentivando a participação da sociedade civil na sua missão.
“Infelizmente, não existem dados sobre os macacos em Cabo Verde”, afirmou o presidente da associação.
Segundo explicou, esta ausência de informação científica dificulta a definição de políticas de conservação e impede uma gestão eficaz da espécie no país.
Para Gricha Lepointe, o futuro dos macacos em Cabo Verde depende de uma decisão estratégica do país.
“Temos de definir que relação queremos ter com a natureza. Ou deixamos os macacos desaparecer, ou organizamos uma coexistência inteligente e pacífica entre humanos e animais”, concluiu.
CG/AV/JMV
Inforpress/fim
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