
Cidade da Praia, 02 Abr (Inforpress) - Zuleika Rodrigues, mãe de uma criança com autismo, defendeu hoje maior aposta na inclusão e no conhecimento da condição em Cabo Verde, alertando para desafios no diagnóstico e a falta de preparação da sociedade para acolher estas crianças.
O Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, assinalado hoje, 02 de Abril, traz consigo histórias que nem sempre se veem, mas que fazem parte do dia-a-dia de muitas famílias cabo-verdianas.
Zuleika Rodrigues partilhou com a Inforpress o seu percurso, que começou com sinais subtis aos seis meses de vida do filho. “A partir dos seis meses percebemos que algo estava diferente e começámos a procurar ajuda profissional”, contou.
O diagnóstico conclusivo, recorda, foi um processo exigente, que a obrigou a procurar avaliações fora do país devido às limitações locais.
Essa trajectória exigente, marcada por dúvidas e buscas, transformou profundamente a sua vida, levando-a a redefinir prioridades e a procurar conhecimento especializado, numa tentativa de compreender melhor a condição e abrir caminhos mais seguros para o futuro das crianças.
Sobre o autismo ainda existe muita desinformação, incluindo a ideia equivocada de que crianças com esta condição seriam “doentes mentais”.
Conforme explicou à Inforpress, o autismo continua a ser alvo de desinformação, persistindo ideias erradas que dificultam a compreensão e a aceitação, quando, na verdade, se trata de uma condição neurológica que exige orientação, acompanhamento e intervenção adequados para que a criança desenvolva autonomia e se prepare para a sociedade.
Embora reconheça o empenho de profissionais como fonoaudiólogos, neuropediatras e neuropsicólogos, Zuleika Rodrigues considerou que a resposta em Cabo Verde continua limitada e que o sistema educativo não está devidamente preparado.
“Muitos professores buscam conhecimento por iniciativa própria, mas o país carece de capacitação, estrutura e políticas públicas que promovam a inclusão, desde a educação infantil ao ensino superior”, sublinhou.
A entrevistada defendeu a criação de estruturas específicas que garantam diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e preparação das crianças para a integração na sociedade, incluindo centros de Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que já existem em outros países.
Para Zuleika Rodrigues, a inclusão vai além de "integrar" a criança num espaço; significa preparar profissionais de saúde, educadores e a comunidade para compreenderem as necessidades específicas do espectro.
Ao reflectir sobre o futuro, manifestou o desejo de ver criadas estruturas específicas que assegurem diagnóstico, acompanhamento e preparação das crianças, facilitando a sua integração no sistema educativo e na sociedade.
Neste dia de reflexão, a mãe deixou um apelo à sociedade e às instituições para que reforcem o compromisso com a inclusão e o apoio às famílias, lembrando que nenhuma criança ou família deve ficar para trás.
O conhecimento, segundo Zuleika Rodrigues, transforma o julgamento em acolhimento, e o apoio estruturado faz diferença no desenvolvimento da autonomia das crianças no espectro do autismo, além de proteger a saúde emocional dos pais.
KF/SR//CP
Inforpress/Fim
Partilhar