Falta de plano de gestão limita fiscalização em Santa Luzia, alerta Biosfera (c\áudio)

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Falta de plano de gestão limita fiscalização em Santa Luzia, alerta Biosfera (c\áudio)
22/03/26 - 01:35 pm

Mindelo, 22 Mar (Inforpress) – A ausência de um plano de gestão continua a limitar a fiscalização em Santa Luzia, apesar de a ilha estar protegida pelo diploma legal sobre áreas protegidas, alertou hoje o presidente da associação ambientalista Biosfera.

Segundo Tommy Melo, que esteve na companhia de uma delegação encabeçada pelo Presidente da República na ilha de Santa Luzia, a ausência de um plano de gestão e de fiscalização efectiva em Santa Luzia está a colocar em risco décadas de trabalho e milhões de euros investidos na conservação da ilha.

Salientou que a associação tem feito um trabalho a nível terrestre, por exemplo, de remoção de gatos selvagens da ilha, um projecto que custou mais de um milhão de euros, a reintrodução da calhandra e de outras aves marinhas, bem como a reprodução e proliferação de répteis terrestres.

“Há 20 anos que estamos a falar de um plano de gestão. Constrói-se, aprova-se, depois dizem que o diploma já está ultrapassado e faz-se um novo plano de gestão. É preciso chegar ao finalmente”, criticou.

O líder da Biosfera disse não saber se por detrás desse impasse está a falta de vontade política ou de recursos financeiros, porque, salientou, “não faz sentido ter um plano de gestão e aprová-lo se não houver verbas para implementar as acções nele descritas”.

Entretanto, lembrou que uma das acções principais, que é a fiscalização, continua limitada, porquanto carece de regulamentação.

“Sabemos que a fiscalização numa ilha é algo muito caro, porque exige recursos e pessoas. Obviamente que hoje em dia já se começa a estudar a viabilidade, por exemplo, de fazer a fiscalização por drones, que é algo muito mais acessível e que pode utilizar menos pessoas e menos recursos, mas é preciso fazer alguma coisa”, afirmou a mesma fonte.

Segundo o ambientalista durante os 20 anos de trabalho da Biosfera observou que a fauna subaquática de Santa Luzia já sofreu uma “perda terrível, mas ainda é reparável, apesar de já estar a chegar ao limite”.

“Santa Luzia é um lugar onde todos os dias encontramos vários botes a praticar pesca com artes destrutivas, pesca com redes de malha, utilizando a técnica do cross, caça submarina, com e sem garrafa, e pescas, às vezes de noite, com luz, que são artes que não deveriam estar a ser utilizadas numa área marinha protegida”, explicou.

Segundo Tommy Melo, por causa disso, neste momento “Santa Luzia vive uma situação de sobrepesca incrível”, fazendo com que “o seu habitat subaquático se reduza a um décimo daquilo que tinha há apenas 20 anos”.

“Se continuarmos nessa demanda de sobrepesca, vai ser muito mais difícil o ecossistema recuperar. O ecossistema marinho recupera-se relativamente rápido, mas os progenitores, os animais que podem gerar novas gerações, têm que estar lá. Se forem todos capturados, vai demorar muito mais tempo”, clarificou, referindo que entre as ilhas de Cabo Verde existem canais de grande profundidade e que peixes adultos e de fundo dificilmente conseguem migrar-se de uma ilha para outra.

Conforme a mesma fonte, Santa Luzia enfrenta um impacto ambiental muito grande, sobretudo nas tartarugas, que ao subir para desovar ficam presas no lixo e não conseguem fazer os seus ninhos.

Além disso, informou que há muito lixo na profundidade, sobretudo redes que prendem e matam espécies, prejudicando a própria fauna marinha, sem falar do microplástico, que só agora se começa a entender minimamente quais são os perigos que tem na cadeia trófica, nas redes alimentares e no próprio ser humano.

Por isso, o presidente da Biosfera disse esperar que a presença da delegação chefiada pelo Presidente da República, na companhia de diplomatas e organismos internacionais, como as Nações Unidas, possa chamar a atenção para a problemática e impactar algumas decisões políticas para que se possa ter finalmente um plano de gestão para Santa Luzia e ilhéus.

CD/CP

Inforpress/Fim

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