
*** Por Carina David (texto) e Sidneia Newton (foto), da Agência Inforpress ***
Mindelo, 22 Mar (Inforpress) – Santa Luzia, tantas vezes evocada pela sua beleza e pelo silêncio quase absoluto, é um dos lugares que fala sem dizer uma única palavra, mas revela uma mensagem inquietante da poluição que chega com cada onda do mar.
A ilha, que integra a rede nacional de áreas protegidas ao abrigo da legislação ambiental cabo-verdiana, por ser um dos mais importantes santuários naturais do arquipélago, vive um paradoxo difícil de ignorar.
Não tem habitantes permanentes, não tem cidades, não tem estradas movimentadas. Ainda assim, recebe diariamente as marcas de um mundo que consome muito e descarta ainda mais.
Na Praia dos Achados, o cenário é tão impressionante quanto perturbador. Entre a areia clara e as pedras moldadas pacientemente pelo mar, acumulam-se toneladas de resíduos marinhos. Plásticos, redes de pesca industrial, garrafas, pedaços de madeira, embalagens e fragmentos de objectos cuja origem se perde no horizonte.
Dizem os especialistas que muitos destes resíduos vêm de longe, transportados por correntes marítimas que atravessam oceanos e ignoram fronteiras. Chegam de mais de duas dezenas de países, como testemunhas silenciosas de uma realidade global que desemboca nas praias desta ilha desabitada.
Mas o problema não é apenas estético. O lixo espalhado pela areia interfere na nidificação de espécies marinhas e ameaça um ecossistema que, durante muito tempo, parecia protegido pelo isolamento.
Cinco das sete espécies mundiais de tartarugas que nidificam em Cabo Verde, bem como aves e outras espécies endémicas que dependem da tranquilidade destas praias, enfrentam agora um obstáculo que não pertence à natureza.
Como se não bastasse, Santa Luzia também sofre com práticas de pesca destrutivas e com a sobrepesca que, segundo o líder da associação ambientalista Biosfera, Tommy Melo, têm reduzido significativamente algumas espécies, com impacto directo na biodiversidade.
Foi perante esta realidade que o Presidente da República, José Maria Neves, decidiu chamar a atenção para a dimensão do problema, elevando a discussão para um plano mais amplo. A intenção é levar o tema à União Africana, lembrando que o lixo marinho não é apenas um problema local. É um desafio regional, continental e global.
O mar que banha Santa Luzia é o mesmo que liga as costas da África Ocidental, da Europa e das Américas. As correntes que chegam às suas praias transportam vidas, nutrientes e histórias, mas também carregam aquilo que a humanidade descarta sem pensar nas consequências.
Cabo Verde como país arquipelágico, conhece bem o valor do mar. Não apenas como paisagem ou identidade cultural, mas como recurso estratégico. A pesca, o turismo, a biodiversidade e a própria sobrevivência económica dependem de um oceano saudável.
Por isso, falar do lixo marinho é, no fundo, falar do futuro do país. Como lembrou José Maria Neves, “Cabo Verde deve ver olhar para o mar como um recurso estratégico e fazer uma gestão sustentável, com um combate firme ao lixo marinho”.
A discussão sobre a economia azul, cada vez mais presente nas agendas internacionais, não pode ignorar este lado da equação, sobretudo quando se trata de um Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento que pouco polui, mas sofre de forma desproporcional as consequências.
Não basta explorar os recursos do mar, é preciso protegê-los. Isso exige cooperação entre países, políticas públicas consistentes e, sobretudo, uma mudança real de comportamentos.
Talvez Santa Luzia, silenciosa e desabitada, esteja a cumprir um papel inesperado: lembrar-nos que o mar, no fim de tudo, devolve sempre aquilo que lhe entregamos.
E se, em vez de lixo, o mundo entregar cuidado, consciência e amor, Santa Luzia e o seu mar continuarão a fazer aquilo que sempre fizeram: multiplicar vida e garantir que as próximas gerações herdem um planeta mais rico, mais diverso e mais vivo.
CD/CP
Inforpress/Fim
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