Entre a dor, o medo e a esperança, doentes e famílias aprendem a viver um dia de cada vez

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Entre a dor, o medo e a esperança, doentes e famílias aprendem a viver um dia de cada vez
10/10/26 - 02:00 am

Assomada, 10 Out (Inforpress) – No Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, as histórias de Edmilson Tavares e Augusto Moreira Martins revelam como o cancro transforma a vida dos doentes e das suas famílias, entre dificuldades, medos e diferentes formas de enfrentar o futuro.

Viver com uma doença grave significa, muitas vezes, aprender a lidar com uma realidade que ninguém escolhe. Os planos mudam, as tarefas mais simples podem tornar-se difíceis e o futuro passa a ser acompanhado por dúvidas, medos e incertezas.

Aos 37 anos, Edmilson Tavares, professor, viu a sua vida mudar com o diagnóstico de adenocarcinoma do cólon esquerdo, um tipo de cancro do intestino. As cólicas recorrentes levaram-no a consultas e exames até conhecer a causa dos sintomas.

“Tudo fica perdido. O mundo desaba, naquela hora”, recordou, emocionado, ao falar do momento em que recebeu a notícia.

Depois de uma cirurgia, iniciou a quimioterapia, com sessões de 15 em 15 dias. Os tratamentos provocam náuseas, desconforto e falta de energia, limitando actividades que antes faziam parte da sua rotina.

A esposa, que vivia em Portugal, regressou a Cabo Verde para estar perto dele e ajudar nos cuidados. Embora, inicialmente, Edmilson não quisesse que ela regressasse por causa da doença, a presença da mulher passou a ser uma parte importante do apoio que recebe nesta fase.

Apesar das dificuldades, continua a desejar recuperar a vida que tinha, voltar a dar aulas e retomar as actividades de que gosta. No entanto, a possibilidade de não conseguir concretizar esses objectivos continua a preocupá-lo.

“Eu quero ter a minha vida normal, conseguir a minha vida normal, fazer aquilo que gosto”, desabafou.

Aos 66 anos, Augusto Moreira Martins enfrenta um cancro do estômago e dificuldades em alimentar-se, que obrigaram à utilização de um tubo para receber alimentação.

A mudança estendeu-se à vida da esposa, que passou a organizar o quotidiano em função dos cuidados de que o marido necessita. A alimentação exige uma preparação especial e, por vezes, a mulher levanta-se à meia-noite para triturar os alimentos e deixá-los prontos.

“Tudo diferente”, resumiu, ao descrever a nova realidade.

A rotina é exigente e as dificuldades financeiras tornam mais pesado o esforço para conseguir alimentos, medicamentos e transporte. Os filhos e outros familiares ajudam como podem, enquanto o apoio de uma enfermeira ao domicílio também trouxe algum alívio.

Para Augusto, porém, o sofrimento não se limita às mudanças do quotidiano. Desde que recebeu o diagnóstico, diz estar à espera da morte e não acredita que vá melhorar.

A sua forma de olhar para o futuro contrasta com a esperança de recuperação que Edmilson ainda procura manter.

Apesar desse sentimento, a fé continua presente na vida de Augusto, que acredita que “tudo depende de Deus”.

As experiências dos dois homens revelam que uma doença grave afecta não apenas o doente, mas também quem o acompanha, cuida dele e procura responder às necessidades de cada dia.

Para as famílias, cuidar pode significar abdicar do descanso, reorganizar a vida e enfrentar o medo de ver a pessoa amada sofrer. Por isso, o apoio aos cuidadores também é importante, para que não enfrentem sozinhos o peso físico e emocional dessa responsabilidade.

No âmbito dos cuidados paliativos, o acompanhamento procura responder às necessidades dos doentes e das suas famílias, com especial atenção ao alívio do sofrimento e à qualidade de vida.

Entre a vontade de recuperar a autonomia, a dificuldade em aceitar as mudanças e o esforço de quem cuida, Edmilson e Augusto vivem a doença de maneiras diferentes.

As suas histórias lembram que, por detrás de cada diagnóstico, existe uma pessoa com medos, necessidades e uma vida que continua a merecer cuidado, dignidade e atenção.

DV/JMV

Inforpress/Fim

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