
Sal Rei, 23 Abr (Inforpress) - No Dia do Professor Cabo-verdiano, celebrado hoje na Boa Vista, as homenagens oficiais dão lugar a um alerta urgente da classe docente sobre uma crise de saúde mental marcada pelo esgotamento e pelo silêncio.
O dia 23 de Abril em Cabo Verde é, por tradição, uma data de postais, flores e discursos sobre a nobreza de ensinar. No entanto, nos corredores das escolas da Boa Vista, o giz que ajuda a forjar o futuro parece pesar cada vez mais. Por trás da paciência de quem educa, muitas vezes esconde-se uma realidade de exaustão, pressão social e o desafio crescente da preservação da saúde mental.
O director do Agrupamento 1, Domingos Lobo, afirma que a pressão sobre o docente é "transversal". Segundo o gestor, o professor hoje, além das exigências escolares, ainda responde às famílias e à própria sociedade.
"É a classe que mais sofre pressão. Se a escola não adotar políticas assertivas, a saúde mental do professor fica comprometida", frisa Domingos Lobo, reconhecendo que o receio do estigma ainda afasta os docentes dos gabinetes de apoio psicológico da instituição.
Na linha de frente, a professora e coordenadora Lilian Rodrigues dá rosto a esta estatística. Ela destaca que o trabalho é contínuo e muitas vezes invisível, estendendo-se pela madrugada na preparação de aulas e gestão de conteúdos - para, depois, deparar-se com o desinteresse dos alunos.
"Vou dormir exausta, com a cabeça pesada. É preciso fazer uma ginástica enorme para que o aluno se interesse", desabafa. Lilian aponta ainda o contexto social da ilha, onde o trabalho intensivo dos pais no turismo muitas vezes deixa os alunos por conta própria, como um factor que agrava a falta de aprendizagem e a exaustão docente.
A realidade é explicada pela psicóloga Vanda Oliveira, que defende a necessidade de não banalizar o sofrimento, enfatizando casos de ansiedade, depressão e burnout. Ela define o ‘burnout’ como uma "erosão emocional" causada pelo ambiente de trabalho, e não por fraqueza do profissional.
A psicóloga alerta ainda para o "contágio emocional", explicando que o estresse do professor eleva os níveis de cortisol dos alunos, prejudicando a aprendizagem afetiva. Aponta o descanso como o "padrão-ouro" da saúde mental e defende que as lideranças precisam de alfabetização emocional para identificar sinais de colapso.
Na biblioteca da Escola Nova, surge o testemunho de Alzira Mosso. Após 18 anos de docência, ela precisou retirar-se por questões de saúde e descreve a saída da sala de aula com "melancolia". Agora, ao observar os colegas do lado de fora, percebe um ritmo muito mais acelerado do que quando começou. O seu depoimento termina com um apelo que serve de balanço para este 23 de Abril.
"Sejamos mais unidos, não deixemos que a carga chegue ao colega… peçamos ajuda… porque ninguém sabe tudo na vida", defende a professora.
Neste dia comemorativo, o cenário na Boa Vista relembra que a educação de qualidade exige, antes de tudo, saúde para quem educa. É necessário olhar para a dor da exaustão, não deixando o pedido de socorro dos professores fora dos sumários da educação.
MGL//CP
Inforpress/Fim
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