
Ribeira Grande, 06 Mar (Inforpress) – Dois colaboradores da Rádio Santo Antão (RSA) denunciaram hoje alegada desvalorização profissional e falta de esclarecimentos sobre a gestão da emissora comunitária, reivindicando melhores condições salariais e laborais após quase duas décadas de serviço.
Em declarações à Inforpress, Aldevino da Graça, colaborador da estação há cerca de 20 anos, manifestou o seu descontentamento, afirmando sentir-se “desvalorizado e abandonado”, apontando a ausência de diálogo com a direcção como uma das maiores preocupações.
Segundo o mesmo, os colaboradores não realizam qualquer reunião com a estrutura directiva há mais de cinco anos, o que gera um clima de incerteza sobre a gestão da rádio.
“Não sabemos quem é o dono da RSA nem a quem devemos recorrer para conversar. Há mais de cinco anos que não temos uma reunião com a direcção. Não sabemos quem é a direcção, nem quem representa a rádio”, afirmou.
O colaborador explicou ainda que, antes da pandemia da covid-19, os trabalhadores recebiam cerca de 14 mil escudos mensais, valor que terá sido reduzido para 10 mil escudos durante o período pandémico e que, segundo disse, nunca mais voltou ao montante anterior.
“Pergunto porque é que nunca nos repuseram os quatro mil escudos, sabendo que a pandemia já passou. Pelo menos os 14 mil escudos deveríamos estar a receber”, referiu.
Aldevino da Graça acrescentou que actualmente cumpre um horário entre as 08:00 e as 13:00, com uma pausa de uma hora durante a emissão de um programa entre as 11:00 e as 12:00, e afirmou ainda que os colaboradores não dispõem de seguro.
Segundo disse, mensalmente são também descontados quatro mil escudos, sem que tenham sido prestados esclarecimentos sobre o destino desse valor.
O colaborador defendeu igualmente que os profissionais da rádio devem beneficiar das disposições legais existentes no país, incluindo a aplicação do salário mínimo nacional.
“Se existe uma lei em Cabo Verde que rege estas matérias, então quero os meus direitos”, declarou, acrescentando que apenas pretende ver repostas condições que considera justas após duas décadas de trabalho na estação.
A mesma fonte referiu ainda que anteriormente existia um subsídio de transporte atribuído pela câmara municipal em parceria com a rádio, mas que esse apoio terá sido suspenso após mudanças no executivo camarário.
“Mesmo com o pouco que recebo, ainda retiraram o custo da passagem de carro, na qual pago 180 escudos por dia”, disse, admitindo recorrer às vias legais para defender os direitos dos trabalhadores.
Aldevino da Graça afirmou também ter sido informado de que o Governo estaria a atribuir um subsídio anual de 250 mil escudos às rádios comunitárias, mas disse desconhecer se esse apoio chegou à Rádio Santo Antão.
Por sua vez, Daniel Santos, com 18 anos de colaboração na RSA, reconheceu que durante a pandemia a estação enfrentou uma forte quebra de actividade e de receitas.
Contudo, sublinhou que, mesmo após a retoma da normalidade, os colaboradores nunca voltaram a receber o valor anterior.
“Tenho 18 anos de trabalho na RSA e acho que quem de direito deveria valorizar o nosso trabalho, porque se a rádio tem audiência é graças ao esforço que fazemos todos os dias”, afirmou.
Daniel Santos manifestou ainda a expectativa de que a situação venha a ser resolvida, com a valorização do trabalho desenvolvido pelos profissionais da estação e a melhoria das condições em que exercem a actividade.
Contactada pela Inforpress, a direcção da Rádio Santo Antão esclareceu que os colaboradores que denunciaram alegadas irregularidades exercem funções em regime de voluntariado, não possuindo vínculo laboral com a estação comunitária.
Adalzira Tomás explicou que os referidos colaboradores não têm contrato de trabalho nem recebem salário.
Segundo afirmou, a actividade é desenvolvida em regime de voluntariado, sendo atribuída apenas uma compensação pecuniária destinada a cobrir despesas decorrentes da colaboração, não se tratando de uma retribuição salarial nem de honorários profissionais.
A responsável acrescentou que a colaboração prestada é pontual e limitada, não ultrapassando o máximo de três horas diárias.
Adalzira Tomás sublinhou ainda que os colaboradores não estão sujeitos a horário fixo, exercendo a actividade com autonomia técnica, no quadro da liberdade de comunicação garantida por lei.
LFS/CP
Inforpress/Fim
Partilhar