
***Por Marli Coutinho Mendes, da Agência Inforpress***
Assomada, 27 Jun (Inforpress) – Presente nos mercados, cutelos e ribeiras, a medicina tradicional continua a ocupar um lugar importante em Cabo Verde, preservando saberes ancestrais, atraindo cada vez mais procura e coexistindo, hoje, com a medicina convencional.
A medicina tradicional continua a fazer parte do quotidiano de muitas famílias cabo-verdianas. De norte a sul do arquipélago, é comum encontrar nos mercados municipais bancas com folhas secas, raízes, sementes, cascas, resinas e outros produtos naturais destinados à preparação de chás, infusões, xaropes e banhos medicinais.
Em Santiago Norte, esta realidade é igualmente visível. Em vários municípios, sobretudo nas localidades mais afastadas dos centros urbanos, em cutelos e ribeiras, homens e mulheres preservam conhecimentos transmitidos oralmente ao longo de gerações.
A procura por estes remédios aumenta em determinadas épocas do ano, particularmente durante períodos de gripes, constipações e outras doenças sazonais, mas também por pessoas que procuram alternativas naturais para aliviar pequenos problemas de saúde.
Apesar dos avanços da medicina moderna, muitos cabo-verdianos continuam a recorrer aos chamados “remédios de terra”, não apenas pela acessibilidade, mas também pela confiança depositada em práticas herdadas dos pais, avós e bisavós.
Hoje, contudo, o olhar sobre a medicina tradicional é diferente. Se outrora era vista apenas como recurso das populações rurais, é actualmente reconhecida por muitos profissionais de saúde como um património cultural relevante, desde que utilizada de forma responsável e complementar aos cuidados médicos convencionais.
Para compreender como estes conhecimentos continuam vivos, a Inforpress ouviu três mulheres que representam diferentes formas de preservação destes saberes.
Aos 97 anos, Isaura Correia guarda na memória ensinamentos adquiridos ainda jovem em São Tomé e Príncipe, onde viveu durante vários anos. Antiga parteira, aprendeu a identificar plantas medicinais e a preparar remédios para anemia, tosse persistente, tuberculose, limpeza do útero e algumas enfermidades infantis.
“Aprendi tudo lá. Fazia remédios, ajudava mulheres a dar à luz e fui guardando o conhecimento. Até hoje ainda me procuram pessoas de Cabo Verde e do estrangeiro”, conta.
Isaura acredita na eficácia das plantas medicinais, mas sublinha que o acompanhamento médico é indispensável. “Hospital é para médico. Nós fazemos remédios de terra, mas as pessoas devem procurar sempre os serviços de saúde. E não se deve misturar remédios naturais com medicamentos da farmácia”, aconselha.
Em Assomada, Maria Nascimento Brito dedica-se apenas à comercialização de produtos naturais, alguns provenientes da Guiné-Bissau. Entre os mais procurados figuram folhas de abacateiro, gengibre, erva-doce, sangue-de-dragão, folhas de oliveira, sal grosso e outras espécies tradicionalmente utilizadas para auxiliar no controlo da diabetes, hipertensão, colesterol e problemas digestivos.
“Eu apenas vendo os produtos. As pessoas levam aquilo que procuram, mas sempre aconselho a fazer acompanhamento médico”, afirma.
Já em São Miguel, Domingas Teixeira representa uma geração mais jovem interessada em manter viva uma prática aprendida com a avó e transmitida pela mãe. Continua a preparar chás e xaropes exclusivamente com produtos naturais, encarando a medicina tradicional como parte importante da identidade cabo-verdiana.
Embora sejam frequentemente as mulheres a assumir a preservação destes conhecimentos, a medicina tradicional permanece como um património coletivo das comunidades cabo-verdianas, transmitido entre familiares, vizinhos e curandeiros populares.
Entre folhas, raízes e infusões, resiste ao tempo, adapta-se aos novos olhares sobre a saúde e continua a ocupar um espaço significativo na vida de muitas famílias, numa convivência cada vez mais próxima com a medicina convencional.
Em comum, as três defendem uma utilização responsável da medicina tradicional, recomendando sempre a consulta dos serviços de saúde e desaconselhando a toma simultânea de remédios naturais com medicamentos farmacêuticos sem orientação adequada.
MC/CP
Inforpress/Fim
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