Sandra Tavares: da sala de aula aos canteiros, uma nova forma de cultivar oportunidades

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Sandra Tavares: da sala de aula aos canteiros, uma nova forma de cultivar oportunidades
14/09/26 - 05:31 pm

Tarrafal de Santiago, 14 Set (Inforpress) – Professora de História durante o dia, agricultora depois das aulas e criadora de conteúdos nas horas vagas, Sandra Tavares transformou, em seis anos, uma experiência de infância numa nova oportunidade de vida.

Aos 43 anos, Sandra Tavares divide-se entre a escola, a horta, a casa e as redes sociais, numa rotina exigente que nasceu de uma relação antiga com a terra. 

Natural da Ribeira de Principal, município de São Miguel, cresceu numa família ligada à agricultura e, durante as férias escolares, acompanhava as actividades de sequeiro.

Foi em 2020, durante a pandemia da covid-19, quando as aulas foram suspensas no terceiro trimestre, que decidiu avançar para a agricultura irrigada. 

Com acesso a água e um terreno familiar em Achada Grande, no Tarrafal, começou a experimentar culturas como batata-doce e amendoim, aprendendo sobretudo com agricultores mais experientes.

Hoje, numa horta com cerca de 1.900 metros quadrados, produz mandioca, cana-de-açúcar, batata-doce, amendoim, tomate, pimentão e outras culturas, recorrendo ao sistema de rega gota-a-gota. 

A escolha depende da época, da disponibilidade de água, da mão-de-obra, do tempo e também das pragas.

A falta de trabalhadores tornou-se, entretanto, um dos maiores desafios. Sandra assume grande parte das tarefas e conta, quando possível, com o apoio de familiares. 

A escassez de chuva, as avarias da bomba, o calor intenso e as pragas completam o quadro de dificuldades de quem insiste em fazer da terra uma fonte de rendimento.

A viragem aconteceu também nas redes sociais. Um vídeo da colheita de mandioca, publicado inicialmente sem grandes expectativas, ultrapassou os 100 mil visualizações e trouxe centenas de pedidos de amizade. Outro vídeo, sobre a cana-de-açúcar, alcançou milhares de visualizações.

Sandra percebeu então que havia espaço para mostrar a agricultura de outra forma e transformou o seu perfil pessoal numa página dedicada à actividade. 

Desde Maio publica, diariamente, acompanhando o processo desde a preparação da terra até à plantação, aos cuidados e à colheita.

“Para criar conteúdo, tens que ter um nicho, tens que ter um tema”, defende, enquanto soma já perto de 13 mil seguidores.

Mais do que mostrar o seu próprio trabalho, Sandra quer fazer das redes sociais uma ponte para a troca de experiências entre agricultores.

Recentemente esteve em Santo Antão e no Fogo, onde teve contacto com outros produtores e partilhou experiências sobre práticas e desafios da agricultura. 

Para ela, cada encontro é também uma oportunidade para aprender e levar novos conhecimentos para a sua própria produção.

Foi dessa conjugação entre produção e comunicação que nasceu a SJW Tavares, projecto que pretende apostar numa agricultura totalmente biológica, mas também ensinar aos consumidores como os produtos são cultivados e utilizados. 

A ideia é vender, informar e aproximar as pessoas da realidade de quem trabalha na terra.

Para Sandra, a agricultura deve deixar de ser vista como uma actividade menor ou “suja”. Quer continuar a partilhar conhecimentos, aprender com outros produtores e levar a sua experiência a diferentes comunidades.

O reconhecimento chegou também através da OMCV que a seleccionou como representante de Santiago Norte no concurso nacional de empreendedorismo feminino, com o projecto SJW Tavares.

A professora que um dia acompanhou os trabalhos agrícolas durante as férias encontrou, assim, nos canteiros uma segunda sala de aula e, nas redes sociais, uma nova forma de ensinar.

Às mulheres deixa uma mensagem simples: acreditar nos próprios sonhos e agarrar as oportunidades quando elas surgem. 

“As mulheres não são tão frágeis como muitas vezes se diz”, afirma, determinada a continuar a cultivar a terra, o conhecimento e o próprio caminho.

MC/HF

Inforpress/Fim

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