
Porto Inglês, 28 Out (Inforpress) – Seis anos após o reconhecimento pela Unesco, a ilha do Maio procura transformar o estatuto de Reserva Mundial da Biosfera em benefícios concretos para a população, num processo que exige melhor gestão e maior envolvimento comunitário na conservação ambiental.
Entre praias, dunas, salinas e habitats de tartarugas marinhas e aves, o Maio reúne um património natural que lhe garantiu, em Outubro de 2020, um lugar na Rede Mundial de Reservas da Biosfera. A classificação abrange cerca de 2.780 quilómetros quadrados, incluindo o território terrestre e as áreas marinhas adjacentes.
Volvidos seis anos, a ilha continua a trabalhar na consolidação dos instrumentos de gestão e na criação de condições para conciliar a protecção dos ecossistemas com o desenvolvimento económico e social.
Para o presidente da Câmara Municipal do Maio, Valdino Rely Brito, o estatuto representa uma oportunidade para diversificar a economia e valorizar os recursos locais, desde o turismo ecológico aos produtos tradicionais.
“Podemos ter um turismo totalmente diferente, um turismo sustentável, de alto valor, mas também um turismo amigo do ambiente, um turismo ecológico”, defendeu o autarca, que vê igualmente na classificação uma oportunidade para promover o queijo, o sal e outros produtos que fazem parte da identidade da ilha.
Na perspectiva de Rely Brito, o reconhecimento da Unesco deve acrescentar valor à produção local e abrir novas possibilidades de investigação científica, sem perder de vista a melhoria das condições de vida dos habitantes.
Rely Brito considera que a criação de uma unidade de gestão constitui um passo decisivo para transformar os planos em acções concretas. Embora a Câmara Municipal presida ao Conselho Consultivo local, o autarca reconhece que a autarquia não dispõe de competências para assegurar, sozinha, a execução efectiva das medidas.
A questão também preocupa o Governo. Durante uma mesa-redonda realizada recentemente no Maio, o ministro do Ambiente, Acção Climática e Energia, Carlos Varela, alertou para a necessidade de acelerar a implementação das medidas de gestão.
“Estamos a completar seis anos de classificação dessa reserva e precisamos, neste momento, de identificar acções muito concretas e criar um mecanismo de gestão desta reserva”, afirmou o governante, advertindo para o risco de a ilha perder o reconhecimento caso não sejam asseguradas as condições necessárias à sua manutenção.
O ministro anunciou que a criação da unidade de gestão deverá concretizar-se até Janeiro de 2027, estando em análise o modelo mais adequado, incluindo a possibilidade de estabelecer uma estrutura de base que trabalhe em articulação com as entidades locais.
Enquanto as autoridades trabalham na consolidação do modelo de gestão, as organizações ambientais mantêm actividades de conservação, educação e sensibilização junto da população.
A Fundação Maio Biodiversidade é uma das instituições que intervêm directamente na protecção dos ecossistemas da ilha, através de programas ligados às áreas marinhas, às tartarugas marinhas, à educação ambiental e às áreas protegidas.
A directora da fundação, Janete Agues, considera que estas intervenções contribuem para os objectivos da Reserva da Biosfera, sobretudo ao promover uma maior consciência ambiental entre os habitantes.
“Temos mobilizado as pessoas a assumirem a responsabilidade ambiental e a protegerem o ambiente na ilha”, afirmou.
Para a responsável, o trabalho desenvolvido pela fundação está alinhado com as acções necessárias à consolidação da reserva, num contexto em que a protecção dos recursos naturais depende também do comportamento e da participação das comunidades.
A sensibilização assume particular importância numa ilha onde actividades como a pesca, a agricultura, a produção de sal e o turismo estão directamente ligadas à utilização dos recursos naturais.
Para além da conservação da biodiversidade e da criação de estruturas de gestão, permanece a expectativa de que a classificação produza resultados mais visíveis na economia e na vida das comunidades. Contudo, a concretização destas possibilidades depende da capacidade de transformar o estatuto em medidas efectivas e benefícios para a população.
O presidente da câmara defende que, até 2030, a unidade de gestão deverá estar em funcionamento e a reserva apresentar indicadores que permitam avaliar os resultados alcançados, tanto na conservação ambiental como no desenvolvimento da ilha.
A avaliação prevista para 2030 será determinante para analisar os progressos e preparar a renovação do reconhecimento internacional e garantir que os benefícios da Reserva da Biosfera cheguem às comunidades que convivem diariamente com esse património.
RL/CP
Inforpress/Fim
Partilhar